Bloqueio

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Parece um bloqueio. Sento-me em frente ao teclado do computador e tento escrever, porém, não sai nada. Nem um mísero conto bagaceiro. Outro dia fui à biblioteca pública tomar posse de um livro para clarear o pensamento, tirar alguma ideia de algum escritor mais conhecido. Buscar referência. Li daquele livro umas vinte páginas em poucos minutos, mas logo a vontade de ler se perdeu pela sala e pus-me a tocar violão. Tentei compor uma música, mas até os acordes se rebelavam contra mim. Sinto raiva disso. Sinto raiva de muitas coisas. Não gosto de novelas e desses filmes idiotas e de orçamentos milionários que geralmente concorrem ao Oscar.

Sábado passado eu não estava por aqui e não vi o que meus amigos viram, não dancei um róque no salão do bar. Acho que está faltando álcool no meu organismo ou algo proibido. Qualquer porcaria que cause certo vício ou uma garota igual aquela, de uma noite qualquer num certo bar que não existe mais. Ela tinha cabelos negros e bem lisos, era pequena e magricela e calçava 35. Bebemos muito e na saída, ao cruzar a porta, ela colocou seus bofes na calçada, pôs fora tudo o que bebera; mas que desperdício, eu pensei. Juntei-a do chão e saímos cambaleando pelas ruas do centro, perto duma fruteira e dum posto de gasolina. Era verão e o meu pai ainda estava vivo.

Noites de trago, róque, amor e putaria. Desse quarteto, as duas últimas há tempos que não vejo. Parece que sumiram do mapa e da minha vida. Por um lado é bom, por outro é péssimo. Ninguém vive sem esse parzinho. Por mais que digam o contrário. Os quartos, salas, banheiros e cozinhas são testemunhas mortas de que isso acontece todos os dias dentro de qualquer lar. Agora quanto às duas primeiras, está virando rotina. Virar a noite bebendo e acordar tarde no outro dia virou regra. O horário de verão está aí e o inverno que tanto gosto já se foi há mais de um mês, agora resta aguentar os pernilongos, o calor e as tempestades de segunda-feira.

Hoje é terça-feira, e agora é quinta-feira. O que importa? Os dias são todos iguais, o que muda, é o numeral. O nome do livro que estou lendo, ou melhor, o título da obra chama-se Angústia, de Graciliano Ramos. Uma boa obra e não recordo se fora indicado no passado por alguma professora de Literatura. Talvez sim, por se tratar de literatura brasileira. E para que não digam que sou um vadio, tentei no domingo passado fazer parte de uma repartição pública, porém, depois de ver o gabarito oficial eu desisti da ideia. Cometi erros bisonhos e fatais. Prova é morte súbita. É acertar ou morrer. Eu morri mais uma vez.

Na segunda-feira caiu o mundo como de costume. Cairam do céu gelo e água, muita água, muito gelo. Goteiras surgiram no meu telhado. Árvores foram tiradas do chão pela raiz e viraram notícia. Morreu até um professor. Dois seres indispensáveis para a vida neste mundo nos deixaram. Que lamento! Que angústia! Mas já dizia o ditado, para morrer basta estar vivo. Quanto à escrita, basta sentar a bunda numa cadeira em frente ao teclado e desembuchar tudo aquilo que se pensa no momento. E um aviso: amanhã (sexta-feira) é dia de palco livre lá no bar. Vá lá e te inscreve porque quem canta seus males espanta!