Boêmias dos anos 50

0
114

1952. Éramos sete e nosso bando era bandido. Nos bailes íamos para dançar e nos divertir e nada mais que isso. Proibido beijar na boca, mas isso não importava. A moda era fumar e beber. Como sempre bebíamos chopp e fumávamos Continental. Eram bailes de chão batido e os casais tomavam conta do salão. Alguns, somente alguns, pois não fazíamos parte do time das casadas. E depois, nenhuma tinha mais de vinte anos. Para piorar sempre tinha um e outro metido que bancava o conquistador. Não me lembro muito bem do dia, mas sei que num desses bailes pra fora, o metido finalmente levou consigo uma acompanhante, uma italiana, grandona maior que nós todas. Parecia ter uns 21. Ficamos pasmas.

Mas isso não iria ficar assim. Éramos perfeitas e bonitas. Todas com nossos vestidos amarelos e pretos e vermelhos e rosas com bolinhas brancas ou xadrezes ou listrados e laços e fitas pelo cabelo. Aquele broto era nosso e de ninguém mais, como aquela sirigaita ousou dar cordas para o que estava preso em nossas mãos? É claro, ficamos enciumadas e afinal ele puxava o saco de todas nós, quando não era o meu era de alguma outra das seis. Fomos ao banheiro e combinamos o que iríamos fazer. Era simples, convidá-lo para dançar, afinal ele caía de quatro por qualquer uma de nós, seria impossível ele resistir. Dito e feito, saímos do banheiro e no mesmo tempo a italiana entrava, aproveitei a deixa e pus-me a dançar com ele. A primeira das sete.

Dançamos três músicas e como estava tudo combinado assim que acabava uma trinca de música uma de nós o arrastava imediatamente para o salão não dando chances para a italiana. Ela bufava de ódio. Enquanto isso, nós bebíamos o chopp que ele comprou. A risada aumentava a cada dança e a cada copo de trago. A raiva da outra também. Nós adorávamos ver aquilo. Ele era bonito, 23, mas um próximo, um vivente apaixonado. Fomos carrascas com ele que estava perdido no meio de nós. Mas, estava claro em seus olhos que ele queria dançar com a italiana que apesar de grande não era menos bonita que nós. Porém, homem é tudo igual. E mulher também. Afinal por que diabos nós fomos incomodá-lo? Simplesmente porque o vimos com outra e, mulher adora uma disputa.

Tanto adoramos que não foi por menos que num dos intervalos ela apelou e chegou batendo o brim. Como estávamos todas bêbadas e risonhas não ligamos e nós a deixamos dançar uma com ele, porém a cada rodopio que eles davam ela dava um beliscão no rabo dele. O coitado pulava. Seguíamos dando risada e bebendo do chopp do homem. A música não dava trégua, o gaiteiro babava por cima da gaita, e morria de sede. Até que deram um breve intervalo para os pobres músicos que animavam o baile. A italiana não largou o moçoilo um segundo, nem para o pobre mijar. Ficamos com dó do miserável. Mas, já estava feita a judiaria. Ela ainda com ódio da gente. Porém ela bebia como nós e, mais uma vez se entregou ao banheiro deixando-o livre para nós.

Ele estava exausto e todo beliscado. Não estávamos nem aí. Tirei outra vez ele pra dançar, mais uma trinca, só que desta vez ela já tinha percebido a nossa tática e ficou na espreita esperando a terceira música acabar. Praticamente dançávamos entre três, pois ela parecia mais com a sombra dele do que com ela mesma. Minha nossa, que grude! A tríade não tinha chegado ao fim e ela o puxou dos meus braços e me empurrou por cima das outras gurias que me seguraram e riram. Todas nós caímos na risada. E eu me mijei. Ela realmente estava disposta a brigar por ele. Como queríamos somente incomodar a deixamos em paz, afinal ela queria dar e naquela altura o galo já cantava e estávamos todas bêbadas e felizes com a certeza de que aquele broto era nosso e somente nosso. Não levamos o prêmio, mas ganhamos a disputa!

Dedico este texto a minha avó e mãe que completou 77 anos de vida na última terça, 17.