Chinelo Velho

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 Pois é, já faz um ano que tudo mudou. Antes eu não tinha compromisso com nada, a não ser comigo mesmo, a faculdade e o trabalho. As quartas-feiras eram reservadas para o futebol na TV, na companhia dos amigos. Um churrasco, e cerveja à vontade no verão. Um carreteiro, e vinho no inverno. Era cada balaço. Teve uma vez, que quase acabaram com o sofá da sala, ao derramar uma taça de vinho. O sofá era branco, e não era de couro. Nunca bebi a tal ponto, apenas observava a embriaguez alheia.

Nesses dias, o riso rolava alto a cada pérola que saía. Quanto aos vizinhos, sequer ouviam o barulho, pois a casa era bem reservada, nos fundos do pátio. Na época eu dividia o aluguel da casa com um colega de profissão, que dividia o quarto dele com a namorada. Quando isso acontecia, eu procurava ficar no meu quarto, a fim de deixá-los mais a vontade. Não vivíamos em uma mansão. Tinha uma sala, dois quartos, cozinha e menos mal que havia dois banheiros. Um nos fundos e outro no centro da casa. Isto evitava algum possível constrangimento no corredor.

O lugar até que era bem ajeitado, afinal poderiam pensar o contrário e que ali poderia ser um legítimo antro de perdição. Mas não, era bem decorada, com quadros pelas paredes de bandas e roqueiros famosos. Led Zeppelin, Janis, Hendrix e por aí. Compartilhei este imóvel durante algum tempo com este meu amigo, que teve que ir embora para outro pago, a partir daí morei alguns dias sozinho, até encontrar outro colega para dividir o aluguel. Morar sozinho não é fácil como pensam, tenho saudade da casa da mãe, onde nada fazia, nem a roupa eu lavava.

Não demorou muito, uns oito dias no total, e eu já havia encontrado outro amigo, para dividir as despesas da casa. Menos mal, caso contrário a faculdade ou o aluguel não ficariam em dia. Comunicação Social e uma moradia no centro da cidade não custam pouco. De diferente, pouca coisa. Apenas alguns dos quadros deixaram de estampar a parede da sala, já que o outro colega levou os que lhe pertenciam. E quanto às quartas-feiras tornaram-se mais raras as bebedeiras, pois eram boladas pelo outro cara, que foi embora.

Senti falta daquilo no começo, e foi nesse momento que te conheci. Então percebi como uma mulher muda a vida de um cara. Tive que aprender na marra como me comportar na presença diária de uma garota, como namorado, diga-se de passagem. Me senti bem, eu confesso. Teu jeito organizado me encantou. Enfim agora eu começava a entender como meu amigo se sentia, ao receber a namorada em casa. É um sentimento muito bom, quem sabe até se confunde com amor, mesmo naqueles dias onde a sacanagem toma conta do quarto. Tudo de forma bem discreta é verdade, afinal ainda divido a casa.

Te digo que tem dias que me sinto feito um chinelo velho, acomodado e amaciado. Talvez valha aí aquele ditado que meu avô dizia: sempre tem um pé sujo para um chinelo velho. E por falar nisso até os teus pés estando sujos, não deixam de ser bonitos. Encontrei algo que foi capaz de mudar com a minha rotina. Eu te encontrei, e espero continuar sendo este chinelo velho e feliz, por saber que sobre ele há dois pés que me faz a cada dia que passa ser um cara mais seguro e comprometido em te fazer o bem.