De repente trinta

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Foi tão rápido quanto a um piscar de olhos. Nesse meio tempo ela casou-se, de véu e grinalda, e de vestido branco. Na igreja e no civil. Mas logo mais adiante se divorciou, esse é o mau de casar-se antes dos vinte e sete. Nas primeiras brigas eu já percebia que aquilo não iria muito longe. Não que isso fosse olho gordo da minha parte, mas dois bicudos não se bicam, já diz o velho ditado. Numa discussão mais feia ela mandou tudo pro inferno, e por ser filha única, foi parar na casa dos seus pais. Porém, há males que vem para o bem, e hoje pelo que eu vejo, ela está mais confiante, e mais segura de si mesma. Lembro-me dela, numa ocasião que não vem ao caso, deitada sobre uma das camas do apartamento dos velhos, de bruços e vestindo um jeans escuro e bem apertado que moldava o seu belo par de pernas. O seu quadril também foi alvo dos meus olhos sujos e imorais de homem solteiro, mas ela era uma moça impedida para mim. Todo o conjunto da obra era proibido, mas por mais chorosa que ela parecesse estar, ela estava linda como nunca, apoiada num dos braços e com o cabelo em tons de vinho tinto atirado para o lado. Tive vontade de saltar em cima dela e abocanhá-la, mas daquele dia eu guardei somente um retrato, fotografado discretamente para não causar alvoroço, porém, o safado, se perdeu com o tempo para a minha infelicidade. Isso já faz anos, eu ainda fazia uso do binóculo e da Nikon, e dois ou três dias depois daquele retrato ela voltou para a sua casa e para o seu homem. É que o amor, nessas alturas fala mais alto do que qualquer romance bagaceiro e proibido. E ademais ela sequer sabia disso, nunca soube até então e jamais imaginou o que a minha mente imaginava. São várias as lembranças, e recordo-me até dos dias em que ela ainda era uma adolescente. Ela cruzava sempre séria, não olhava para os lados, mas deixava de rastro aquele cheiro de moça de família, que atiçava os boêmios que por ali ficavam. E no condomínio, por ser diferenciada das outras e bem estudada, era cobiçada, mas o que todos dela queriam já estava reservado, o que restava era apenas olhar e nada mais. Sortudo foi aquele que por vários dias a teve, deitada do seu lado e que conheceu os seus atalhos. Mas a sorte acompanha somente as mentes sábias e hoje o que se vê é uma baixinha na faixa dos trinta, bem sucedida e viajada dando banda por aí “sozinha”. Mas sozinho ninguém fica neste mundo. Ainda mais tendo boa lábia e inteligência. E disso ela tem sobra e foi assim, num dia desses que lhe disse tudo isso e mais um pouco, tornei público o que era impublicável, arriscando por abaixo o que levou anos para ser conquistado. Mas sendo amiga, prima, irmã ou conhecida uma dama sempre deve ser bem vista, e bem elogiada. Não basta dizer que está bonita e bem vestida. É preciso dizer mais para que elas se sintam poderosas, atraentes, e acima de tudo, mulheres.