Devaneio

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Cabelos negros e cacheados. Corpo leve e pequeno. Inocente, puro. De dar pena de tocar. Se não fosse pela elasticidade que ele possui, eu diria que era de porcelana. Metida a escritora e louca por retratos. Não consegui parar de vê-los quando me deixou sozinho com o seu álbum de fotografias. Eram muitos. Realmente um problemão, ter conhecido esta ninfeta. Quanto aos seus escritos, alguns falam de amor, ou da falta dele. Clichês. Ter algo em comum com um ser tão pequeno como este é cadeia na certa. Nem idade para beber ela tem. Dezessete. Folheando aquele álbum gigantesco vi um retrato ladeado, na horizontal. Era um lindo vestido longo que ela usava, era listrado. Ela não parecia ter naquela fotografia a idade que me disse. Um pecado. Um crime. Eu só posso estar ficando louco a me dar tal luxo. Dei um tempo para o álbum a fim de vê-la trazendo o copo d’água que lhe pedi. Ela vinha sorrindo em direção a sua poltrona segurando um copo hexagonal de vidro.

Transbordava. E a minha sede também. Já não sabia mais definir se era de água essa minha sede. A covinha no meio da bochecha, o sorriso. Ela era proposital com seus movimentos. Cruzava e descruzava as pernas que estavam expostas. O macacão bege, de sarja e com botões cor de ouro em forma de moeda, era bastante curto. Eu parado somente analisava com o canto do olho, pois no meu colo eu tinha a bíblia que contava a vida dela em forma de imagens. Ainda bem. Dos autores, Albert Camus. O Estrangeiro é o seu preferido. Como pode? Tão jovem e já adepta de grandes literaturas. Que encrenca! A mocinha despertava o meu interesse, e o apetite também, simplesmente pela forma encantadora que conversava.

Os lábios se movimentavam pausadamente quando falava. Sem pressa, a sua dicção era perfeita. Usava um vocabulário variado e de difícil compreensão, mas para rapazes da sua idade desacostumados com os livros. Ela fazia questão. Talvez quisesse realmente impressionar, a fim de mostrar que sabia lidar com as palavras. Ou não, porque nada de extraordinário eu havia feito para que ela me convidasse para visitá-la numa tarde de domingo. A sua tática estava me convencendo de que eu poderia avançar. Mas permaneci paralisado, dando sequência aos retratos. Era um mais belo que o outro, mas eu evitava elogiá-los, pois, às vezes, entre um e outro ela corava as bochechas do rosto. Alguns eram bem provocantes. Mas não eram safados.

Eu admiro ver alguém revelando fotos, não é a toa que ela os adora. E se ama também. Perdi a conta de quantos eu vi. O álbum com cara de livro tinha mais de cem folhas. E pesava um horror. Numa das poses de algum retrado ela estava sentada no chão, com as pernas entrelaçadas uma na outra em forma de x, como se fosse praticar Yoga. Toda de preto. Calça colante e blusa decotada também colada ao busto. Um absurdo. O vão dos seios era plenamente visível, nesta hora ela corou mais. Eu ri, e passei para outra folha. Não consegui dar fim ao álbum. Parei quando vi uma foto que atirava um beijo para quem a visse. Seus lábios unidos um no outro tomaram forma de morango de tão rubros. Eram tentadores. Além do mais uma fita trançada prendia o seu cabelo junto às têmporas. Levantei-me e fui embora com a promessa de voltar, até lá, eu espero que ela tenha terminado as obras que está lendo. Fante, Kerouac e Bukowski também estão ao lado dela. Safados!