Diário de bordo

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Na segunda-feira passada, dez de junho, por volta das nove e meia da noite eu peguei minha bicicleta e saí a fim de umas cervejas. Rumo ao boteco mais próximo. Essa é uma das vantagens de não possuir um veículo automotor, seja ele uma moto ou um carro. Sim, existe mais de uma: chego mais cedo em casa nos horários de pico quando saio do trabalho. A outra é que ainda não fazem testes de bafômetro em ciclistas. Talvez isso justifique o tombo que tomei de bike há dois anos e dois meses completamente embriagado na Travessa Mauá com direito a testemunhas, na frente da imobiliária e do antigo curso de inglês que existia por ali. Caí de cara no chão, sem defesa alguma a menos de cinco por hora e desloquei o dedo mínimo da mão esquerda. Minha cara ficou mais ou menos parecida com a do Steve Lopez, personagem interpretado pelo Robert Downey Jr. em O Solista. Já viram esse filme? É muito bom!

De volta ao assunto, a temperatura da segunda-feira era amena, talvez uns dezoito graus com o outono em contagem regressiva, algumas estrelas no céu, enfim. Na ocasião eu vestia uma camisa xadrez cinza em flanela, um jeans azul, um tênis rasteiro preto e a camiseta da banda por baixo da camisa, e para não colher o sereno e manter o corpo aquecido, por baixo da camiseta da banda, uma manga longa do Tricolor.

A segunda-feira até ali havia passado feito uma bala. Eu precisava muito molhar a garganta com alguma coisa gelada e alcoólica para aliviar-me da tensão que nos causa do dia mais corrido da semana. Combinei com o Thales de nos encontrar no boteco assim que ele terminasse a sua prova de Anatomia. Cheguei ao bar cinco minutos após a minha partida, extraordinariamente depois de ter posto no rádio de bolso algumas canções do Pearl Jam. Todas as faixas disco Yield. Na parte da tarde eu já havia manifestado o desejo de ouvir a voz do Eddie. Também, na mesma tarde pude ouvir a opinião de um leitor do Jornal das Missões, cujo qual, escreve pra concorrência. Ele, o leitor, mostrou-se muito indignado depois da minha última postagem aqui nesta tirinha. Disse até que achou absurdo o texto em questão, e que eu não posso viver em sociedade levando comigo mesmo um pensamento daquele tipo. Mas o mais bonito disso é que este leitor se trata de uma pessoa que eu nunca tinha visto antes, e que ele me prometeu uma resposta. Adorei saber disso porque será num outro jornal. Eles estão de olho. É sério! Isso está muito bom. Ansiosamente esperarei pela réplica.
No bar havia quatro sujeitos. Pareciam ter vindo de uma partida de futebol de salão. Deixei a magrela encostada na parede, cruzei entre eles e fui até a janelinha de cinquenta por cinquenta e pedi uma cerveja. Forte e gelada. Três mangos. Pescoço longo. Estava vencida, mas não fiz conta. Abri e mandei bala. Cerveja vencida tem um poder muito maior de embriaguez. Montei na bike e procurei pelo canto mais escuro da via, pois segundo a lei é proibido beber aos arredores desse tipo de boteco. Feito isso, coloquei a magrinha encostada num muro e me pus sentado na garupa e comecei a degustar a minha cerveja, ouvindo nesta hora Given to Fly. Não demorou muito, do além, uns trinta metros mais acima de onde eu estava surgiu um transeunte. Ele parou ao lado de uma moita e mijou.

Depois, colocou-se a andar novamente na minha direção. Ao passar na minha frente me olhou de forma firme na cara, e cumprimentou-me com a cabeça como que se ele quisesse me intimidar. Devolvi o mesmo tipo de cumprimento mostrando a mesma seriedade com a cara.

O Thales apareceu com a sua moto em seguida, uns quarenta segundos depois. Eu o segui para que eu pudesse abrigar o meu veículo biomotor na sua casa. Tive que abdicar do Pearl Jam que eu ouvia, mas por bom motivo. Começamos a compor algumas coisas. Até que saiu alguma coisa do tipo: “elas leram Lolita mais de uma vez, e resumiram pra que eu pudesse entender a malícia que esconde um professor, mas ele não pode ensinar o que elas querem saber.” Foi isso, e lhes digo: vai ficar bom! Semana que vem eu lhes conto o resto.