E nada mais que isso

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 Nunca mais eu vi a Lúcia, e a última vez que passei com ela fora em Porto Alegre. Hoje eu não sei o que ela anda fazendo ou com quem anda se metendo. Com ela dá pra se dizer que quase rolou um amor desses de comédia romântica, mas eu era apenas o seu FGTS. O curioso é que ficamos quase um ano desse jeito, antes dela ir embora é claro. Aqueles encontros safados eram perigosos. Na calada da noite, e enquanto os gatos da casa dormiam. Era sempre assim, muito arriscado. Não sei por que eu fazia aquilo, afinal, o risco de levar um tiro no meio da cara era enorme. Ela gostava daquilo tudo, do medo, da adrenalina. Do escondido. Parecia que ela estava fazendo algo plenamente normal. Era normal, mas eu relutava em não querer ver assim. Evidentemente que Lúcia não abriu tão facilmente as entranhas da sua casa para que eu entrasse. Mas depois que entrei a primeira vez, as minhas noites de segunda pra terça mudaram, as dela também.

Por volta da uma da madrugada eu chegava, ali pelas três voltava pra casa. Exausto e ½. Baixinha e com uns quatro quilinhos acima do peso ideal ela se defendia muito bem. Dona de um cabelo liso e escuro, até a altura do ombro e fanática por futebol. Talvez esse fora o principal motivo do nosso, do nosso, ah, não sei dizer o que era aquilo. Enfim, nunca foi adiante. Dois fanáticos não se bicam. Pra feia ela não servia. Nem para biscate. Era bonita. A boca era como poucas, e se parecia com um morango quando fechada, sempre estava pintada. Sinceramente não sei o que fiz para que ela se prendesse a mim. O que acontecia naquela cama não era nada absurdo. Muitas vezes eu fraquejei, porque seguidamente, algum barulho estranho adentrava pelo vão da porta do quarto. “Relaxa” – dizia ela no pé do meu ouvido. Mas, de que jeito? – eu respondia.

Posso dizer que com ela fui um mau caráter. Ser seu FGTS estava me cansando. Na terceira segunda pra terça de algum mês daquele ano, eu não produzi nada. Fiquei imóvel, esperando por ela. Talvez por isso eu tenha tomado uma mordida nada prazerosa na altura da cintura. Aquela dentada doeu mais que um coice no saco. Depois daquilo fiquei um mês sem aparecer e traumatizado. A marca me acompanhou por uns quinze dias. Na verdade eu estava confuso. Querendo deixar de vê-la somente à noite e passar a frequentar aquela casa durante o dia. Poder almoçar com ela num domingo, quiçá até ver um jogo. Tomar uma cerveja com o pai dela. Fazer parte da família, assim bem bonitinho. Mas por ela eu seria para sempre o seu FGTS. E nada mais que isso.

Trinta dias depois do recesso voltei lá; ela estava diferente. Não me mordeu. Estava dócil. Caprichei mais desta vez e ganhei a partida. Ela gostava de perder desse jeito, porém, era o único jogo que ela gostava de perder. E como eu dizia lá no começo, na última vez que a vi não fora diferente. Agi como sempre agi, mas deixei de lado aquela bobagem de sentimentalismo, fiz o que ela queria. Esperava que ela também fizesse o mesmo, mas aí… Ficamos juntos por duas noites. Ela gostava mais de mim, do que eu dela. Me xingou de tudo e mais um pouco. Parece que o jogo se inverteu, o problema é que não havíamos feito o seguro-despedida, claro, eu era o seu FGTS e nada mais que isso.