É preciso merecer

0
119

 Ano novo; barba nova. Para a alegria da minha avó a minha barba caiu. Mas ela irá voltar, é uma certeza. Mas não me livrei do remorso de ter me desfeito dela. Do nó na garganta ao ver a tesoura podando aquilo que mais queria quando garoto. A pelugem pintava de preto a pia. Entupia o ralo. Mas ela vai voltar. Começou lá aos doze anos com aqueles fiapos finos e feios abaixo do nariz. Dois anos mais tarde ela já tomava conta de boa parte do rosto. Aos quinze quase fechava. E agora aos vinte sete se confundia com a barba de um profeta. Para alguns com a de um mendigo. Posso afirmar que por ela sou apaixonado, ela me protegia do frio e do calor, ao contrário dos meus antigos amores. Mas eu a desapontei, eu a cortei. E tê-la cortado me deixou narigudo, me disse uma amiga. Um castigo aceitável. Eu ri. Porque sei que é verdade. Eu sem barba e de frente ao espelho me lembro do meu pai. Pareço um guri. Dá dó de ver. Mas que o verão traga novamente o que o inverno trouxe. Os pêlos.

Tornei-a famosa, dentro de uma comunidade. Mas nem por isso amada. Algumas garotas lamentaram a sua morte. E outras, antes do homicídio, puderam tocá-la com os lábios. Na minha mão destra a prova do crime. As digitais. A espuma. A lâmina. O espelho e a cara do homicida. Uma cara lisa e safada, parecida com a de um moleque menor infrator, que não tem ideia do crime que cometeu. Mas isso terá um fim. Eles já estão rasgando a pele. Colocando-se para fora para me proteger novamente deste outro eu que fez com que eu botasse fora noventa dias de histórias. Algumas de amor, outras de rancor. Que eu colocasse fora os aromas que nela grudaram. Agora estou com cara de gente. Cara de gente sem estilo, cara de gente mandada. Cara de gente comum. Mas ela vai voltar. E espero que venha com força. Que encrave dentro da pele, e se desencrave. Para que eu pague pelo crime.

Dentro do cárcere, eu já pago pelo preço de não vê-la mais. E fora dele, as pessoas não me conhecem, me olham e estranham. Claro. Mais do que normal. Farei mais amor daqui pra frente, e não farei a barba. A da cara, quanto às outras, é de suma importância cortar. É o que elas dizem. Enfim, o que importa mesmo é o que eu penso a respeito disso. Vamos esperar, porque ela vai voltar. Ainda bem. E que isto sirva de lição para todos nós. Algumas coisas voltam, outras não. O impulso nos transforma em homicidas. A tesoura ganha do papel, mas perde para a pedra que perde para o papel. E por aí vai. A barba vai, a barba volta. Os amores vão, os amores voltam. Mas é preciso merecer. E é por isso que poucos têm a sorte de ter pêlos ao redor da cara.