Encarcerado

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Todo começo de semestre é assim: aquele medo de que alguma aluna maluca pule no meu colo e eu seja visto como um tarado. “Abuso sexual é crime e podem te arrebentar as pregas caso caia numa jaula cheia de maníacos do parque.” Essas são as palavras que meu pai diz em cada março e agosto do ano. Das leis eu manjo bem. Não é a toa que eu lecione a história do que dizem que é certo. Mas o que é certo? Quem disse que as coisas devem ser assim como são? Quem são os presos? Aqueles que por alguma coisa ou outra estão trancados em jaulas ou nós que não podemos sequer dar um grito no meio da rua? Podemos gritar, mas se gritarmos em excesso, a lei do silêncio nos faz calar a boca.

Por isso escrevo. Há dias que estou assim, meio pra baixo. Querendo afogar a fuça num litro de uísque, ou até mesmo, num litro de canha chinela. Mas, o cheiro que exala da minha boca é de café preto. Nem pra beber estou prestando, mas o que será isso? Que dor é esta que assola o meu peito e por que raios as outras garotas já não são tão importantes? Parecem tão vulgares e não me completam mais e este março começou diferente. É ela! Esta bendita menina de cabelo claro avermelhado que está me deixando neste estado.

Só posso estar ficando louco e perdendo a noção do tempo e do espaço e do bom senso. Nessa altura os títulos ficam de lado, o mestrado parece não servir pra nada nesta hora. Ela foi embora! A carteira dela está vazia e no seu lugar outra pessoa. E foi pra longe pra piorar. Desceu pro sul aumentar seu conhecimento, talvez meu ensinamento não fora suficiente, mas não me condenarei de tal maneira. Tenho certeza de que, o que lhe ensinei, ficará pra vida toda, com absoluta certeza. Meu cheiro ficará encravado em sua pele, nos seus lábios, por todo seu corpo. Para sempre serei lembrado.
Pode ela querer criar um bom motivo para que eu não lhe surpreenda com uma visita. Porém eu já lhe disse que pretendo sim ir visitá-la. Não foi somente o sexo que fizemos, teve algo maior nessa conjuntura. Sexo por sexo, temos a todo o momento, basta querer. Mas, esta diferença, este algo a mais não se encontra por aí tão facilmente. Estou encarcerado.

Que ela vá e aprenda tudo o que a vida pode ensinar. Não sou do tipo que prende garotas. Mas, sou do tipo que se prende a elas, mesmo parecendo “de fato um clichê, um vaudeville vulgar” a olhos nus. As canções de embalar marujos vão dar a tônica para que eu não entre em parafusos. Não posso prometer coisas, nem juras de amor. Promessa é dívida no meu pago e não fico devendo. Nem pro bolicheiro da esquina! Farei o que achar que é justo, se defrontar-me com alguma novidade eu não hesitarei, assim como sei, que ela não vai hesitar.