Falando com os mortos

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Ainda me lembro da primeira vez que ouvi o seu nome Charles. Foi na casa da Thamires, estávamos eu e ela, há uns quase quatro anos sentados na frente da sua casa; um largo gramado de frente para uma travessinha de pouco movimento, um lugar agradável para passar o final de uma tarde. Ela tinha numa das mãos um dos seus livros, agora não me pergunte qual deles era, na ocasião eu não prestei muita atenção, pois eu preferi olhar o movimento da sua fala; os lábios eram pequenos, finos e róseos, livres de tinta e o cabelo dela, ah o cabelo… Os cabelos eram parecidos com microfios de cobre e desciam lisos até a altura do pescoço. Tinha ela um rosto alegre, de traços únicos e um par de olhos de um castanho muito vivo, e pelo que já li de ti, tu gostarias de conhecê-la se ainda fosse vivo e se morasse aqui nesta urbezinha onde vivo. Mas certamente, também, chutaria o meu traseiro depois deste meu relato. Um livro merece a mesma atenção dada a uma mulher, descobri isso com o tempo.

Li o teu Misto-Quente e foi deste que mais gostei. Aos poucos vou lendo-o por completo e já estou bem longe. Descobrindo também outros autores, não é por menos, que, a leitura nos ajuda e muito. Hemingway que o diga, não é? Ele é um dos grandões, e Dostoiévski do mesmo modo. Comecei com Paris é uma Festa. Do Fiódor, O Jogador. Que obras! Leio aos poucos e sem pressa, detalhando cada expressão nova, buscando seus significados. São eles, os livros, comparáveis aos melhores quadros que já apareceram por aí, e isso que não sou apreciador de telas, mas possuo um amigo que tem um dom indiscutível para isto, logo eu paro por aqui. Falar do que não se tem conhecimento é um erro. Os teus livros, também, são dignos de premiação, mas quem se importa com premiações, afinal, o que importa mesmo é sempre ter uma cerveja bem gelada ao alcance da mão. E mulheres também, muitas delas se possível, não é? Eu andei lendo o seu conselho de como se tornar um grande escritor.

Saiba Charles, que eu moro num quartinho pequeno, de pouco luxo e de poucos móveis, e não pago aluguel, bebo frequentemente, sempre quando tenho alguns pilas e preocupo-me, apenas, em comprar mais e mais cerveja. Dos investimentos, um dos melhores. Possuo também uma máquina de escrever indigesta, que, seguidamente tranca, e isso me aborrece muito, mas ela serve, dá pro gasto e, além disso, bebo nos dias de visita, quando aparece um amigo que me bate à porta do biongo com uma porção de latas de cerveja em busca de um lugar tranquilo para beber e ouvir boa música. Além do mais Charles, sou um fodido, ainda não ganho dinheiro com a escrita, mas não me acho azarado, e me arrisco a dizer que sou um sortudo, afinal, eu tenho até uma banda, mas o que a gente canta poucos querem tocar, e este lugar que vivo é só para mim. O senso comum discorda disso, e talvez me julgue desempregado, uma vez que, não gero renda e não pago impostos para o governo, ou seja, um vagabundo.

Até parece que não faço nada, que não escrevo, que não limpo a minha privada, as janelas e os vidros desse meu quartinho suburbano, e eu gosto dele, pois não sou ambicioso, e esta palavra que é filha de outra, ou seja, da ambição, me dá asco. Dos vocábulos, e ao lado da inveja é o mais horroroso de todos. O quarto, voltando a falar dele, é feito de eucalipto, de poucas aberturas, todas elas em metal e envidraçadas com vidros canela, pintadas de vermelho-chassi, as tábuas não são pintadas por fora, apenas por dentro e de branco, e há teias de aranha por toda a parte, eu gosto das aranhas. A peça possui um banheiro interno, devido a isso me sinto mais sortudo ainda, e algumas garotas já passaram por aqui. Andei decorando uma das paredes com alguns trapos que eu usava no passado, fiz uso dos meus conhecimentos em paisagismo e artesanato, cortei as camisetas usando uma tesoura, e agora estão ali pregadas como se fossem obras de arte, as estampas do Led Zeppelin, do Hendrix, do Doors. Com madeira e cola-madeira, para firmar melhor. O que me diz disto, Ernest? Estou sendo verdadeiro com minhas palavras? Desculpe-me lhe incomodar e tirar-lhe, também, do sono eterno e ainda mais desta forma, tão inconveniente, pois há poucos dias descobri teu nome, sou um desconhecido pra ti, porém, acalme-se, tratarei de lhe conhecer para que o meu acervo de termos não se acabe por aqui. Obrigado caras, voltem a dormir, pois agora beberei algumas por vocês! Saúde!