Felinas

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Eu fui fiel por longos cinco anos. Fiel à última gata que tive. Depois daquela manhã de segunda-feira que a busquei morta dentro de uma caixa de papelão, lá da frente da AABB eu nunca mais quis ter uma felina. Na antevéspera ela havia engolido algum veneno, porém, os medicamentos não deram conta. Ela estava ali; velha, dura e fria. Não havia mais nada para se fazer. Lembrei de quando eu a encontrei em frente ao CAIC em 2001, pequena e menor que um rato e sem mover as patas traseiras. Cuidei dela durante dois meses em cativeiro, leia-se aqui dentro do meu quarto, até que pudesse andar. Ela morreu em 2007 aos seis. Ao chegar em casa, fiz um buraco e a enterrei. Fora uma segunda-feira triste, 10 de setembro.

Há dois meses uma gata apareceu por aqui, talvez tenha ela me escolhido assim como a outra havia feito, pois acredito que os bichanos escolhem os seus parceiros ao contrário dos caninos. Gato, ou gata não pula no colo de qualquer um. Tive receio ao querer esta gata, eu ainda guardava sentimentos pela outra, porém, ela me queria, não restava mais nada para mim a não ser recebê-la. Ela ficou e eu a nomeei.

De parecida com a outra ela não tem nada, talvez o excesso de pêlos que larga a cada subida no meu colo seja a única coisa em comum à outra. Quanto à idade, esta já não é mais nenhum bebê gato, inclusive está em época de acasalamento, e é por isso que estou falando disso. Céus, eu realmente não me lembrava desta parte, e que tendel. Ao adotá-la e por ela ser um pouco mais grandinha eu a julguei e pensei que fosse vacinada, não era. O que resta agora é esperar, mas o problema são os gatos no meu telhado bagunçando tudo, rolando um por cima do outro entre mordidas e miados desesperados, e enquanto isso outros gritos insanos que vêm do meu banheiro, foi lá que eu encerrei a minha gata. Não quero que ela encha a pança de novos felinos.

A Filó e a Laika que estão se divertindo, eu as atiço contra os felinos, e os safados não ousam descer do telhado, porém, os meus ouvidos, ah, os meus ouvidos… não há roquenrou que encubra os miados da gata. É um timbre agudo, muito agudo, e ora grave, é assustador, porém, ela há de me entender. Há poucos dias, ela fora gravemente ferida pela pittbull que tem aqui do lado, a mesma que arrancou há dois anos, uma das orelhas da minha cocker, a Filó. Por sorte a minha gata teve apenas uns furos na pança e no lombo. Já estão cicatrizados, mas foi por pouco que ela não bateu as botas.

Ter uma gata é compromisso. Qualquer bicho é um compromisso, tenho o mesmo com as cadelas. O curioso é que estamos em setembro e foi impossível não recordar da minha outra gata, ela era peluda e de nariz rosa e com um leve desvio na coluna. Esse desvio a minha nova gata também têm e graças ao ataque que sofrera no segundo dia deste mês. Agora são duas coisas em comum em relação à outra, minto, ela já dormiu na minha cama, então já são três, e se porventura ela já esteja de pança, serão quatro e a fidelidade que eu tinha pela outra se perdera, que diabos…

Assim sou com as felinas, mas pior que isso é ser assim com as felinas humanas. Vira e mexe sempre aparece uma pra bagunçar com os crespos da minha cabeça, depois para tirá-la dali é só com tratamento de choque. Acho que vou soltar a gata e deixar que ela encontre o seu gato, e irei me trancar no banheiro, jogar a chave na privada e puxar a descarga.