John & Summers

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Foi curta a passagem dela na cidade grande. Como nada deu certo por lá, Dorothy Summers voltou para a casa dos pais, numa pequena cidade interiorana. Veio um pouco maior, mas não em altura. Voltou pesando mais, talvez uns sete quilos, com pernas, quadril e bustos mais bem definidos. Palpáveis. Certamente andou trabalhando o seu corpo por lá. Eu a vi duas vezes durante o seu regresso, uma vez num coletivo e outra vez no bar que eu costumava frequentar, quase que diariamente. Nunca perdemos o contato um com o outro, exceto quando, eu ou ela, estávamos comprometidos com alguém. Mas nossas conversas nunca mudaram. Ou brigávamos ou falávamos sobre sexo. E foi assim que começou uma conversa descarada, e à tarde, num dia de semana por um desses sites de relacionamento: <<Dorothy! Tudo bem contigo>> <<Ué? Comigo sim, mas e contigo? E por que está me chamando assim?>> Eu peguei o costume de chamá-la pelo apelido, dificilmente a chamava pelo nome. <<Assim, como? É o seu nome, não é?>> Retruquei, bancando o idiota, isso deixava “Dothy” muito furiosa. Este era o seu apelido. <<Sim, é o meu nome, mas é estranho te ver falando assim>> << Bom, acredito que não tenhamos mais, eu e tu, aquele vínculo. Dessa maneira, por respeito que eu lhe chamo assim, mas se preferir eu continuarei com o apelido>> Eu gostava de chamá-la pelo apelido. Isso afetava também outra pessoa, neste caso, quem lhe dera tal alcunha. Talvez eu seja mesmo um idiota. Cada vez mais eu acredito nessa hipótese. <<Está muito quente hoje, maldito calor!>> <<Pois é>> disse ela. <<Estou suando mais que prostituta em serviço e nem parece que tomei um banho gelado há poucos minutos>> << Nem me fale, estou igual>> << Mas então, Dothy, por que não vai até o banheiro e molha o seu corpo?>> <<Seria uma boa pedida>> <<E já que falei dele, reparei nele naquele dia que nos vimos no ônibus. Está maior, e definido>> <<Normal, isso não me assusta vindo de ti>> <<Ei, isso era para ser um elogio Dothy>> <<Eu sei, tô brincando! E tu nunca mudas, nunca relaxa>> A partir daí a conversa entre Dorothy e eu foi se aprofundando, e como se não bastasse o calor externo, a temperatura de nossos corpos aumentava a cada palavra nova. <<Acho melhor pararmos por aqui Dothy, estes assuntos, a essa hora, não são boa coisa>> Houve um silêncio do outro lado, talvez uns trinta segundos de espera de minha parte. <<Ah, mas por quê? Agora que estava ficando bom>> << O quê? Não me diga que está com vontade? Nessa altura da tarde?>> << Vontade? Vontadezona!>> Desta vez o silêncio veio de mim. Deixei o monitor e ela a minha espera, enquanto fui à cozinha pegar uma garrafa d’água. O calor realmente era intenso, talvez uns quarenta graus. E nem um mísero vento para ajudar. O ventilador bufava, ele se desmanchava e o vento que espalhava pelo quartinho era quente. Um horror. Quando voltei, já havia outra mensagem à minha espera <<Ei, o que tu farás no sábado?>> <<Bá, eu ainda não sei.>> Obviamente que eu já sabia, eu sempre tenho algo a fazer num sábado. <<Por que a pergunta? Haverá algum baile por aí por perto?>> Os bailes eram a única diversão dos pais de Dothy, e eram nessas ocasiões que fazíamos a festa. Era os gatos de casa saírem, para que os ratos fizessem o serviço sujo. Era sujo, mas com vontade. <<Engraçadinho, não tem baile nenhum e eu perguntei só pra saber>> Mentira de marca maior. Toda vez que ela mostrava interesse nesses assuntos era porque alguma coisa estava acontecendo dentro daquele ventre. Como eu havia dito, ou a gente brigava, ou… e era assim. Sempre foi. Nunca mudou. Em doze anos. Tudo igual. <<Enfim, eu pretendo ir ao bar como sempre, e tu Dothy?>> << Eu ainda não sei. Estou vendo o que faço>> <<Dothy, vou indo, está muito quente aqui dentro, um beijo e até mais>> <<Um beijo, e até mais John>>.