Muito mais que no princípio

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Quinze dias. As horas passam, os dias voam. E atrás do que escrever deixei-os solitários durante aquele período. Desculpem. Disse Bukowski que os sábios param e os tolos prosseguem. Sou um tolo. Não consigo parar com essa coisa. Com esse hábito. Mas em quinze dias as ideias borbulham na mente. Não é tão fácil parar com a escrita. Então lhes dedico mais outro conto qualquer:

Muito mais que no princípio

Estava muito quente, o verão a pico. E João Pessoa afogava turistas em alto mar. Era tarde da noite quando saíram do bar depois de uma dúzia e meia de cerveja. Os turistas beberam boa parte do estoque do bar. Só pararam quando a tontura lhes deu com um relho na cara. Embarcaram risonhos e alegres. Rumo à boemia eles me convidaram para seguir com eles. A noite tornara-se ali uma jovem criança, pura e inocente e o ambiente aonde chegaram era propício para o aumento na carga tributária dos seus pecados. E que bando pecador! As moças da casa dançavam. Todas bonitas, bem maquiadas e arrumadas. Os rapazes mal sabiam dançar. Uns muito feios. Outros nem tanto. Pançudos, magricelas. Bebiam doses de uísque com energético, vodca e outros tragos mais bem elaborados, enfeitados. Todos bem acompanhados. Os mais econômicos tomavam cerveja. Muita cerveja, baldes de cerveja. Não paravam. A cevada entrava goela abaixo e a música não dava trégua. Quanto ao ritmo, do mais popular possível. Pancadão alguma coisa, era a voz que a Junkie Box reproduzia. A boemia estava liberada. O sofazão estava tomado pelo bando que admirava o show de boca aberta. Duas ou três canções, um chicote e muita sensualidade. Uma tarde na fruteira. Mas a mais admirada da noite foi outra. Era Iara. Ela pulava de galho em galho. Sempre aos risos e com um ar muito provocante. Voava para o alto em colos alheios, ombros largos e bêbados. Parecia adorar tudo aquilo, e sim ela gostava. Girava o seu corpo branco e tatuado para tudo quanto era lado. A plateia só sabia olhar e nada mais. Mas tudo aquilo tinha um preço. Nem o aniversariante obteve sucesso. Ninguém. Ao menos até onde foi possível ver. Todos e todas desejavam Iara. E ela só parou quando a musicalidade do lugar mudou. O que era popular tornou-se clássico. O velho preto e já finado Hendrix, enfeitiçou os ouvidos dos mais cultos e infernizou o ouvido dos menos exigentes que por lá estavam. Os risos foram de alegria por parte do bando de turistas e o róquenrôu fora libertado por um preto. Glória! Depois dele outro guitarrista, Jimmy Page, seguiu o baile. Ambos pela primeira vez estreavam naquele palco. Um morto e um vivo. Aleluia meu rei! O cabaré de João Pessoa nunca mais fora o mesmo. Aos poucos o que estava cheio foi ficando vazio. O róquenrôu foi morto e as pancadas frenéticas voltaram com tudo e Iara, também. De sofá em sofá, de mão em mão. Dançava feliz e alegre. Não dava descanso para os seus pés. E a caboclada velha novamente louca da vida pregou as vistas nela que não parava de dar show. Mas quem mais se deu bem foram outras moças que pouco (ou nem tanto como Iara) fizeram. Elas rumavam com seus amantes para os confins do lugar. Perdiam-se numa das portas, depois retornavam por outra, desquitadas. E Iara? Ah, Iara. Por que fizeste isso comigo? Logo eu que te amava tanto. Creio em Deus pai todo poderoso que, depois disso tudo, eu te amo muito mais que no princípio.