O cabelo dela

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Cheguei mais cedo hoje de noite. Escrever não me dá dinheiro e, o trabalho paga pouco e não fui ao curso outra vez. Abri a geladeira e catei a última cerveja gelada que havia, sentei-me na sacada e liguei o rádio. Tocava The Strokes, Is This It. O barulho dos carros ainda era audível, não passava das oito e meia da noite, alguns casais formavam a fila pro cinema e, outros simplesmente andavam de mãos dadas olhando as vitrines das lojas, tomando os seus sorvetes napolitanos.

Aqui do alto, pareciam tão tranquilos, eu deveria parecer também, porém cada acorde da música penetrava o meu ouvido e doía como um beliscão. Aos poucos a cerveja acabava e a música também. A última. Antes que acontecesse levantei-me e fui até o quarto catar os últimos trocados que restaram. Juntei quase vinte mangos e alguns cascos. Desliguei o rádio, desci e fui ao bar mais próximo garantir mais seis cervejas que o dinheiro pagava. Não havia mais nada para fazer além de beber.

Atravessei a rua assim que a luz vermelha da sinaleira acendeu. As moedas faziam barulho a cada passo que eu dava em direção ao bar, era engraçado. Me senti poderoso com elas ali, afinal sem elas, outros beberiam a cerveja que gelava a minha espera. O barulho confundia-se com o timbre da guitarra do Nick Valensi que ficou grudado na minha cabeça depois que desliguei o rádio. O bar se aproximava mais alguns metros e a cerveja estaria em minhas mãos pronta para cruzar a goela.

Exatamente seis unidades e ainda sobrou pro chiclete. Voltei em direção ao apartamento e com a porcaria da música, cravada na ideia, mas que diabos. Com tantas músicas animadas do Strokes, por que justamente essa tocava naquela hora? Outra vez esperei o sinal fechar para que eu pudesse atravessar a rua. Enquanto isso a cerveja esquentava, quando se quer um sinal verde, não o temos, quando não o queremos lá está ele para atrapalhar. O vermelho apareceu, atravessei a rua e entrei.

Estoquei as garrafas no congelador e fui tomar um banho. Antes liguei o rádio outra vez. Desta vez, não era Strokes, mas Lynyrd, Free Bird. Puta que pariu, parecia que o radialista queria foder o meu rabo. Mas, por saber que a letra é linda, pus o som em seu máximo volume. A água molhava a minha cara e o sabonete tirava o fedor. Saí do banho antes da metade da música, me vesti, peguei uma cerveja e me sentei novamente na sacada. Se os vizinhos estavam gostando ou não, eu não ligava.

Como diz a letra, foi um amor gostoso, mas as coisas simplesmente não seriam iguais. Em instantes, a cerveja acabou. A segunda da noite, a primeira das seis. Uma pena não existir geladeiras andantes e com controle remoto. Fui até a cozinha, busquei pela terceira no momento do solo, o momento ímpar da canção. Dancei sozinho solando com a vassoura, a loucura me batia e a campainha também. Deveria ser algum maldito vizinho incomodado pelo barulho. Não atendi.

Eu não queria ver gente, eu não queria ver nada. Só queria beber e ouvir música, só isso. Depois, quase no fim da música ouvi o toque do telefone, como não dei bola para a porta, eu não dei a mínima para o celular. Com a cerveja em minhas mãos sentei-me novamente, mas antes coloquei no rádio um CD do Lynyrd. Foda-se o radialista e sua audiência pífia. Sweet Home Alabama nos meus ouvidos e para o prédio inteiro. Não eram dez horas e, eu estava no meu pleno direito e gozo, para ouvir rádio e encher a cara.

Passado uma hora no relógio só restava uma música e, eu já estava bêbado o suficiente para cair da sacada. E os vizinhos putos da cara e provavelmente já chamando a polícia. Simple Man tocava quando abri a última cerveja. Perto do solo, a cerveja já havia acabado. Deitei e encostei a cara no travesseiro e, nele encontrei alguns fios de cabelos avermelhados e compridos, peguei-os e os coloquei no lixo. O cabelo dela. Depois eu soube que foi ela, que tocou a campainha naquela hora, quando vi a mensagem não respondida.