O ponto zero

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Era cinco e trinta e dois da tarde quando Roque chegou ao Café das Seis. Sentou-se no mesmo lugar para esperar Sarah que ainda estava no trabalho. Não fazia frio e ele pensava no que tomar, se molharia a goela com algo gelado ou quente. No cardápio vários tipos de cafés e na lembrança do seu paladar o gosto do café morno de quinze dias atrás, e também sucos, refrigerantes e cervejas. Foram poucos minutos de indecisão, nesse meio tempo duas garçonetes atenderam o jovem Roque, porém ele nada pediu.

O Café começava a ficar lotado e no entra e sai de clientes, velhos e velhas, mulheres e homens, garotas e garotos. Numa dessas, finalmente Sarah atravessou a porta de vidro vestindo uma blusa azul, um jeans e o clássico All Star preto com listras vermelhas. Roque recebeu Sarah com um demorado abraço e um beijo na sua bochecha direita. Ali estavam os dois depois de quinze dias do primeiro encontro. Dessa vez veio um garçom atender os dois.

– Olá, já fizeram o pedido?

– Dois sucos de laranja, por favor – falou Roque, após Sarah pedir a ele que fizesse o pedido.

Não demoraram muito, e logo eles foram servidos. Sarah puxou dois canudinhos e mergulhou ambos no copo de suco colocando a outra ponta entre seus lábios. Ele não quis saber deles, passou a mão no copo e molhou a garganta. Roque havia passado os últimos sete dias longe de casa, viajou para a capital a fim de ver seu time jogar. Sarah também fez algo diferente, viajou, porém não muito longe. Ela foi curtir algumas bandas de rock independente numa cidade vizinha no fim de semana.

Roque contou a ela o que fez, desde o jogo e outras coisas mais e ela da mesma forma também compartilhou suas façanhas em terras distantes. Em questão de minutos os dois já não tinham mais o que beber, mas ainda tinham muito a conversar. Numa e outra conversa Sarah deixou escapar algo sobre seu último romance, e Roque de cara descobriu de quem se tratava, e até ficou meio surpreso, pois o rapaz pouco tinha a ver com ela em questões comportamentais, mas ela discordou e contou a ele que aprendeu muitas coisas com esse rapaz, inclusive foi aí que ela descobriu os discos do Pink Floyd. E ela falou mais, não somente deste caso. Aproveitou o embalo e contou sobre os outros romances que teve e isso tudo foi uma surpresa para Roque, pois mesmo com tão pouca idade ela vivenciou o mesmo número de romances que ele.

Desta vez não ficaram muito tempo no Café das Seis, nem deu sete horas e os dois já estavam pagando a conta. A aula de Sarah começava às sete e meia, mas ela precisava resolver algumas dúvidas com o professor. Lado a lado, cada um pagou o seu suco e os dois saíram porta a fora. Antes de atravessarem a rua, Roque queixou-se da garganta. Ela riu, e ainda disse que boa parte das suas amigas também estava do mesmo jeito, exceto ela. Atravessaram a rua, mas não se bateram um no outro como quinze dias atrás, e seguiram conversando sobre casos passados até que Roque disse que a partir dali gostaria de falar com ela apenas sobre o presente e o futuro.

Quando chegaram ao cursinho, conversaram sobre o vestibular, coisa que Roque nunca prestou na vida, mesmo sendo formado, hoje em dia há outros recursos. Ela reclamava da escadaria que teria pela frente, então ele lhe disse para que ela imaginasse Porto Alegre ou Santa Maria, degrau a degrau, quem sabe assim a sua preguiça sumisse de cena. Sarah deseja mais Santa Maria do que Porto Alegre. Roque gostou de saber disso, pois tem grandes chances de ir morar lá ainda no segundo semestre. É o que ele mais quer no momento. Despediram-se com dois abraços apertados e longos, um não foi suficiente, e um beijo demorado em cada bochecha e uma certeza de que o Café das Seis é o ponto zero dessa história.