O relógio de areia

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Imagine começar algo sabendo que este algo se extinguirá no fim do prazo que por você mesmo fora estipulado neste começo. Conheça uma guria, um guri, um homem ou uma mulher, enfim, conheça esta pessoa e diga a ela que ela terá somente alguns instantes e nada mais para te conquistar e consequentemente te amar. Inverta os papéis e imagine que esta pessoa está te propondo tal acordo. O que tu farias? Pois foi assim que aquele guri começou o seu mais recente romance, colocando o relógio de areia sobre a mesa e segurando de forma firme a mão daquela guria de olhos cor de esmeralda e de pele branca, após ambos aceitarem os termos da união. Um romance do tipo antigo, sem maiores abusos, apenas as duas mãos sobre seus colos, ora na perna esquerda dele, ora na perna direita dela.

Como se estivessem num conto de fadas os dois seguiam o acordo em minúcias, não poderiam por mais desejoso que fosse beijar um ao outro, pois no contrato o único contato permitido era o toque de mãos e nada mais tão íntimo fisicamente falando. Os dois podiam conversar qualquer assunto que viesse à tona, romances do passado, música, filmes, livros, danças, futebol e também leves detalhes de cada um deles fisicamente falando, desde que suas mãos, a canhota do nem tão belo guri estivesse unida à destra da linda guria. E como conversaram aqueles dois. O amante fiel com o contrato debaixo do braço não poupou esforços para amá-la e protegê-la dentro do prazo e aos poucos ela abria o seu coração contando-lhe tudo o que sofrera num passado tão distante dos dias de hoje, comentando até das várias vezes em que ela chorou em meio a soluços pelo término do seu último romance. O guri fez o mesmo, não poderia ele ali, ser tão egoísta a ponto de não compartilhar com ela a respeito do seu último desquite. Em trinta minutos, os dois conheceram muitas coisas um do outro. Ambos em outro tempo se doaram incansavelmente a fim de ter um romance longo e duradouro, até conseguiram alguns, mas com doses de sofrimento embutidas no pacote.

Restavam uns cinquenta minutos e ainda havia um oceano a ser descoberto. Enquanto ela molhava os lábios com refrigerante a base de coca e ele umedecia a goela com cevada, as suas mãos permaneciam bem presas uma na outra. Apaixonados lado a lado, vez e outra um deles levantava a fim de ir no banheiro tirar o excesso de líquido da bexiga, eram amantes e livres, não havia ciúme e ele não acompanhara ela uma única vez, das cinco, que ela fora ao toalete, mesmo havendo pelo caminho algumas ameaças a outros olhos, mas não aos dele, pois ele confiava cegamente em sua amada. Ele fora à sala do mijo umas três vezes, levando com ele apenas a sua sombra. A conversa evoluía e numa e outra prosa mais detalhada ela corava as maçãs do rosto e abria um sorriso pomposo e grande, e nesta hora os seus lábios róseos e sem batom realçavam. O guri que não podia fazer nada a não ser observá-los, observava-os atento. Viu neles o que se parecia com uma mini marca de pasta de dente, mas nada que um morder de lábios não a tirasse dali, e fora exatamente isso que ela fez, exterminando o detalhe, rindo e corando novamente as suas bochechas. Vê-la rir, era ver o céu.

No terço final do acordo ela conseguira causar o mesmo efeito no guri, que apesar de não tão novo, tinha lá as suas vergonhas, ao ser questionado sobre a pelugem a lá Wolverine que sua cara exibia. Ela gostava de barba, o que para ele fora uma grande e boa surpresa. A areia do relógio escorria e a forma que escapava de um lado para o outro era insana, o tempo para eles nada mais era que um grande carrasco, um chacal, querendo assassiná-los. Cinco minutos, era esse o tempo que restava para os dois. Suas mãos naquela altura quase se fundiam, tamanha era a força e vontade que se seguravam. Olho no olho como desde o início do romance aproveitaram os últimos instantes para ouvirem uma canção. Quando a areia tocou a marca de um minuto, cada um disse o que de melhor viveu um ao lado do outro. Vinte segundos para ela, vinte para ele e os outros vinte segundos foram reservados para um forte e caloroso e apertado abraço quebrando o contrato, terminando aí um romance perfeito e sem lágrimas sofridas porque histórias de amor duram apenas noventa minutos, já viram esse filme? O guri ainda não, mas melhor do que isso, ele vivera a própria história.