Parte II

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 Naquela noite como havia lhes prometido eu saí atrás de um trago, mas não sozinho, comigo estavam dois amigos. Nos entupimos de trago, e rimos até cair os dentes da boca. Insatisfeitos, após saldarmos as não-me-lembro quantas cervejas, compramos outras nove, até ganhamos uma de cortesia do garçom, que já rezava pelo nosso sumiço, ou talvez, ele almejasse, apenas, que o sono nos espancasse a cara.

Também, antes de depositarmos os pés pra fora daquele boteco, um cachorro, ou melhor, um enorme de um canino e da cor preta, parecendo ter uns oito ou nove anos, inopinadamente surgiu em nossa mesa. Não tinha parte do rabo, tinha no lugar dele um toco e o movimentava freneticamente e de forma inócua. Era um cachorro safado e bem dado, ou seja, um vira-lata, como nós, naquela altura da penumbra da noite. Sabem rapazes, que nossa conversa ultrapassou fronteiras? Sim, ela alcançou a pequena ruiva, aquela de ombros roliços, pés curtos e estreitos e pele cor de leite. Mas não era a minha intenção acertá-la, mesmo assim, confesso que no passado, era eu, um ser extraordinariamente perdido por ela.

Conduzir minha expressão a vocês me parece bom, e é por isso que dou seguimento a toda esta tolice, é que na verdade ao desvendar as páginas de cada um, vejo que há certa semelhança, mas nem de longe somos iguais e evidentemente que ainda não passei fome, e que não recebi pena de morte, mas, se por ironia isso um dia acontecer, estaremos talvez no mesmo patamar. O que advém, é que somos cultuadores da angústia, somos predestinados para todo o sempre ouvir o que diz a voz de uma mulher, e o que é mais doloroso ainda, obedecer. Não há homem neste mundo que nunca tenha pensado na vida em dar um tiro em outro, tendo em sua sombra a sombra de uma mulher. Posso até dizer que já quis dar uns tiros, mas não cheguei consumir o fato, e cargas d’água isso seria algo terrivelmente dotado de uma grotesca falta de inteligência de minha parte. Por essas questões que é preferível tomar um trago na table d’hôte.

Agora, permita-me, por favor, Mr. Ivanovitch, (Fiódor), falar assim, nestes termos sentimentais com a vossa personalidade, mas eu nunca fora um homem de muitas mulheres e nem de grande beleza. Mas dá para ligeiramente, aqui, comentar, que, a mademoiselle Polina, se parece muito com a outra ruiva revelada por mim, conforme a tua definição. E que sina é essa, Mr. Chinaski, (Charles) dessas mulheres, dessas garotas de cabelos alaranjados, ou não, aparecerem assim repentinamente em nossas existências, como aquele cachorro de pelagem negra, sem aviso-prévio e chacoteando, e ainda, saírem delas sem ao menos bater a porta? Acho que têm, elas, um fino traço genético que atravessa os séculos da existência humana. São demasiadamente iguais, e estão sempre a nos alocar debaixo da ponte.

Meu pai, e só agora o chamo na conversa, por também fazer parte do time dos finados, me dizia que tal música, escrita por algum sambista, condizia inteiramente com a sua vida amorosa e não por isso feliz: “já tive mulheres, de todas as cores”. A partir daí, dá-se para dizer-lhes meus amigos e, se é que posso me atrever a chamá-los assim, que ele padeceu por algumas delas, assim como eu e vocês também já. Mas a sua própria existência não fora tão severa assim com ele mesmo, uma vez que, nos seus últimos dias colocou no seu caminho uma gringa; de um rosto rubincundo, esta fora a sua última mulher, e assim como eu, também estava presente no cemitério no dia do temporal. Lembra Paulo? Toda agonia, leva a um triste fim, ou não. Tu sofreste, mas pode dizer a si mesmo, e até mesmo para os colegas de time que havia uma mulher em seu velório, além da própria mãe, irmãs e filha. Ainda bem! E por isso eu me alegro. Logo, defino e concluo que, nenhum homem morre sozinho a não ser que o deseje e quiçá isso explique o suicídio de alguns homens de fama conhecida.

Para eles, pouco importava as mulheres, ou suas ordens e o dinheiro. Se vissem eles, num determinado ponto de suas vidas que já haviam feito tudo o que tinham a fazer aqui, para quê diabos dar seguimento? Simplesmente para agradar os seus devotos? Que ironia, que egoísmo. Não deles, mas dos seguidores. Seria correto eles durarem até seus ossos apodrecerem por mero capricho de pessoas que sequer um dia tentaram compreender os seus motivos, enfadonhos ou não, para que metessem logo de vez uma bala no meio da cara, ou alguma droga letal dentro das próprias veias? O jogo continua. Até mais, rapazes, novamente, obrigado por mais esta. Bebemos!