Parte III

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Será que os meus ainda se lembram deles? Dos livros que citei aqui há quinze dias. Se não lembram, tratem de relembrar, e depois, de encomendá-los na livraria mais próxima, ou ainda, tentar num sebo qualquer. Veja esta Dostoiévski: depois do boteco, e de toda aquela cervejada, fomos dar fim nas outras dez que havíamos ostentado direito. O profissional que nos atendia enfiou-as dentro de uma sacola plástica e, com muito gelo, logo, debandamos para o meu biongo. A sequência de gargalhadas alastrou-se durante toda a madrugada, peço desculpas, aqui e, por tabela, aos meus nobres e bons vizinhos que aturaram a algazarra sem dar um pio e sem nos denunciar aos tiras. Na mesma, a namorada de um dos meus amigos, do mais escuro, estava por chegar de uma excursão, uma longa excursão, e dessa forma ainda tínhamos tempo, e a cerveja cruzava que nem água por nossas goelas, a fumaça de alguns cigarros também, mas fumante havia um só, o de cútis mais clara.

Por volta das quatro, bêbados e risonhos, decidimos partir ao encontro da dama que vinha de longe, antes disso, confabulamos uma surpresa, algo extraordinariamente bisonho, ou seja, uma serenata. Com as violas no saco embarcamos rumo à estação ferroviária, e no calor da bebida, e me esqueci de mencionar a vodca consumida, achamos aquilo a coisa mais linda já vista na natureza feita nestes tempos modernos, e para os outros adultos ao nosso redor, aquilo era algo estúpido e infanto-juvenil. Sem pensar no aforismo alheio, esperamos angustiadamente pelo vagão que trazia a jovem dama para os braços do nosso amigo. Cada um de nós, num canto da estação, escondido e preparado. Fora eu o primeiro dos três estúpidos, como pensavam os adultos a nosso respeito, a vê-la; ela descera sonolenta e vagarosa, cambaleava com suas malas. Quando ela se afastou do vagão que a trouxera, saltei do mato onde eu estava escondido e, ainda me escondendo, a fim de segui-la, eu documentava todo o aparato. Os passantes e passageiros me olhavam com certo medo, assustados como se eu fosse um maníaco do parque, um Elias Maluco. Para resumir a empreitada, a serenata foi um sucesso. Isso me lembrou muito de ti Mr. Ivanovitch (Dostoiévski) quando peitou la baronne Wurmerhelm. Impulso! Muitos homens vão à morte devido a ele, mas outros, simplesmente vão à sarjeta. Mas não o meu amigo. A sua amada garota lhe recebeu com um largo sorriso e, muito surpresa pelas vozes ébrias e acordes desencontrados que escutava quase no fim da madrugada.

Ei, Mr. Chinaski (Bukowski), o teu silêncio muito me agrada, é que sou assim, como o Mr. Ivanovitch (Dostoiévski), quando me dão o direito eu falo e falo… e falo… e, me julgam por isso, muito inconveniente e invasivo. Ademais, tenho os meus problemas, todos têm e, talvez, não, certamente, eu devo ser o mais transparente possível, eles, os meus, estejam relacionados a fardos do meu passado, já comentados com a psicóloga que abandonei, mas não por não tê-la gostado, meu bolso não permitira tal tratamento, alguns amigos e parentes também o sabem, mas não deixo que isto tome conta de tudo, caso deixasse eu enlouqueceria. Cada poeta com seus carmas e traumas, danos e exílios. Também, tome o devido conhecimento Bukowski, que, num outro dia, depois daquela serenata, me brotou no biongo uma amiga de quatro anos, beijando os vinte, e dizer que havia quase um ano que isso não caía; uma mulher dentro do meu biongo de eucalipto e de interior branco. Antes é claro, bebemos algumas garrafas de cerveja no mesmo boteco já dito, e talvez por isso, ela aceitou o meu convite, porém, nada de útil, aos olhos de um tarado, fizemos eu e ela, mas por outro lado, bebemos mais. Do mesmo modo Dostoiévski, ou melhor, Mr. Ivanovitch, que tu agiste com mademoiselle Polina Aleksandrovna, eu agi com a minha visitante. Eu falava mais, porém, o pouco que ela me dizia me atingia de forma absurda e em cheio, como se me desse umas pauladas. Sentia na sua conversa um grande asco quando se referia a um sujeito que fizera parte da vida dela uns anos antes, no período em que estivemos eu e ela, distantes um do outro, e por isso, fiz apenas o que ela me permitira fazer, mas importante ressaltar, que, de pouco adiantaria os meus esforços, afinal, uma moça, só faz com um rapaz, o que realmente deseja fazer. Acredito que, fiz eu, o que era de ser feito, e como Mr. Ivanovitch diz, em bom francês: cela n’était pas si bête. Dona de uma esbelteza, e de cabelos ondulados e escuros, tinha a jovem, nos dedos menores das mãos, como direi, hã, algo único, que não assisti em outras, e o que observei faz dela, uma criatura de beleza muito rara.

O que acham disso?