Parte IV

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O dia amanhecia e, lentamente o disco do Los Hermanos chegava ao fim, primeiro tocou Morena, por último, Último Romance; que ironia não? É meus amigos, mortos e escritores, eu espero que esta conversa esteja animando os meus, e confesso que tenho certa curiosidade em saber se eles estão gostando desta tolice. Não recordo ao certo qual dia da semana fora aquele, o dia da visita da moça, mas não era sábado, e me representa que era quarta-feira, sim, era uma quarta-feira quente e seca. O pó se unia ao muco do meu nariz, me sufocava, e impedia a passagem do ar, teve um tempo que fui viciado num certo medicamento que servia para aliviar o desconforto, e com muito esforço, me desfiz de tal porcaria. O disco chegara ao fim por volta das seis horas da manhã, e após, alimentar nossos estômagos, cada um com um iogurte de morango, seguimos a pé até a porta da casa dela, onde eu abracei-a e beijei-lhe a testa, e nunca mais a vi.

Saiba Fiódor que o li em poucas horas. Espero que os meus, o leiam, e lhe digo mais, em seu lugar, eu teria feito a mesma coisa, nunca é demasiado tarde para abusar da sorte. Encantei-me pela vovozinha, e sua energia frente à roleta, magnífica e muitas vezes, acompanhada de um azar extraordinário, porém, quando ganhara a primeira vez, eu confesso que ri euforicamente. Que loucura, trinta e seis contra, e te entendo perfeitamente quando a abandonou. Muitas vezes é preciso perder para dar valor ao que se tem; e é incrível como temos o dom de criarmos para si próprios uma porção de problemas. Numa próxima, a vovó te ouvirá. Mas agora, mudando de assunto, o ócio vem me acompanhando há meses, mas, não me queixo porque estes últimos meses têm sido para mim, os melhores desses vinte e sete e janeiros que passei, afinal de contas, eu passo boa parte do dia em casa na companhia dos velhos, eles precisam de alguém que os assista. Mas querendo dar fim nesta ociosidade, num outro dia me candidatei a uns empregos, porém, deu em nada. Preciso de alguns pilas é verdade, mas quiçá num futuro, eu publique isto em forma de livro a fim de lucrar. A soma é simples, e o montante, de uma extraordinária cifra e se forem publicados uns mil exemplares, tira-se o custo, e ainda sobra-me algo. Mas quem pagaria por meus escritos? Os meus, ou quem sabe, os de vocês? Não sei.

Dei-me ao luxo Charles, de aumentar o meu tino literário, e tomei posse de um manuscrito de quinhentas páginas, e sua impressão é datada de 1944, tem um ano a menos que meu avô. Nas páginas, além da história impressa, tem muito pó e algumas manchas negras sobre elas, bem como, orelhas de burro. O que mais me espanta é o vocabulário da época, “cousa” daquele tempo mesmo, ou simplesmente, coisa. Sim, o livro, mais uma vez, é teu Fiódor, e me desculpe Bukowski, estou te traindo, mas juro, que outro dia, atirei-me contra uma livraria a fim de orçar uns livros teus, mas o que pediram por eles passou dos cem pilas e, logo, neste momento é demasiado para mim. Agora tenho pra mim que “Humilhados e Ofendidos” não poderia ter oferecido começo melhor, e ainda, o arrumei emprestado na biblioteca da cidade, e acredito Charles, que em algum momento da vida, teus olhos fitaram esta obra. Uma pena, o que acontecera ao velho Smith e com Azorka, uma grande pena, porém, isso foi de grande valia para o Mr. Ivan, não é Dostoiévski? Um quartinho úmido, porém, a seis rublos mensais. E Natasha? Confesso que me apertou o peito, no dito momento em que ele, Mr. Ivan, presenciou tal encontro. Natasha estava bem, podia ela, escolher entre dois amores, qual deles acolheria em seus braços. A estimativa que fiz, foi de ler de setenta a oitenta páginas ao dia para que em doze horas, eu termine-o. Enfim, depois do serão com Ana e de deixá-la em casa, tomei o rumo do biongo, já era quinta, deitei-me e dormi até o sol passar o meio-dia. No sábado, havia uma excursão marcada para outra cidade, uns duzentos e tantos quilômetros mais ao sul, a quinta passou voando devido o meu sono e somente na sexta-feira saí a fim dum trago. Encontrei-me com meus amigos, aqueles dois da serenata, juntamente da moça homenageada, bebemos algumas cervejas, não me lembro quantas, mas não foram suficientes para entortar a vista e nem soluçar, fizemos um trato de que só beberíamos de tal forma, na tarde de sábado, e depois de realizar o nosso trabalho. Ainda na sexta, encontramos outros amigos na praça central, e bebemos mais um pouco, mesmo assim os olhos continuavam enxergando bem.