Parte IX

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A lentilha estava magnífica. Claro, na fome qualquer prato se parece com o melhor dos banquetes, mas evidentemente que a cozinheira era de mão cheia. Não recordo qual delas fora a responsável por aquela iguaria. Ali dentro da casa conversávamos: eu, o meu amigo mais claro, outro amigo nem tão claro, mas nem tão escuro também chamado pelo mesmo nome do meu amigo mais claro, a namorada deste meu amigo nem tão escuro, outro amigo vindo da capital, uma amiga bacharel em Direito e uma menina parecida com a Fernanda do Pato Fu. Bebemos alguns litros de cerveja e tocamos violão até que o sono nos socasse a cara, e isso, quase na hora do galo cantar. Ficou dito que acordaríamos cedo, para que déssemos um jeito nas coisas que ainda não estavam prontas, afinal, as pessoas das outras partes do Estado chegariam por volta das 17h do dia oito. Evidentemente que ninguém acordou antes das 10h da manhã. Mas quando acordamos cada um foi fazer alguma coisa. O meu amigo mais claro voltou para organizar algumas coisas na cidade, o outro nem tão claro, a namorada e a bacharel em Direito também. Eu fiquei por lá, era preciso dar uma ajuda braçal, pois a moça parecida com a Fernanda do Pato Fu catava as bostas de vaca que estavam espalhadas pelo gramado do sítio. Desta forma, coloquei-me a catar as bostas de vaca junto com ela. De ferramentas um carrinho, uma enxada, uma pá e só. E tinha bosta, credo. Mas em ½ hora ou um pouco mais demos fim a elas e o gramado ficou limpo, verde e bonito. Após isso, de longe, reconheci meu amigo da capital roçando o mato a uns duzentos metros de distância, o sujeito parecia com sede e cansado, fui até ele levar um pouco de água gelada, feito isso, tomei nos braços aquela máquina de cortar mato para que ele descansasse um tanto. Fiquei com ela outros tantos minutos, suficientes para uma boa insolação, é meu amigo russo, eu sou um tanto preto, mas preto também se queima sob sol forte. Queimei as bochechas, elas ardiam e tornaram-se rubras. Mal deu meio-dia, e para a minha surpresa, vi aparecer na porteira de entrada da festança, dois ou três caras. Coloquei-me a pensar: mas que diabos fazem aqui? – ainda não são 17h! – mas não os censurei. Entraram e perguntaram a respeito da área reservada ao camping. Menos mal que de lá não saíram mais durante o dia todo. Ao menos eu não os vi mais. Cansado e ½ sentei-me ao pé de uma sombra rala que havia ao lado da casa principal, servi-me de uma água gelada e esperei para que avisassem do almoço. De tarde, ali pelas quinze horas voltei para a cidade pegar as ferramentas de trabalho. Aquela noite do dia oito para o dia nove do segundo mês do ano prometia muita coisa boa.

De volta as comodidades de um lar citadino, livrei-me das roupas sujas e procurei um banho a fim de tirar o fedor que tomava conta do couro. Depois dormi. Quiçá umas duas horas. Às 19h e somente neste horário, voltei ao sítio, desta vez, eu estava acompanhado do meu amigo mais escuro, pois este já havia cumprido seus deveres com as coisas do governo. Era carnaval, mas nem parecia. Ao chegarmos novamente ao sítio uma porção de gente, todas muito bonitas e risonhas estavam espalhadas pelo campo. O palco devidamente montado no centro do sítio, a copa distribuindo muita cerveja, era tudo alegria. Novamente, não houve registro de rebelião. E para quê? Ali a paz e o amor reinavam. Na parte dos fundos, onde havíamos instalado o nosso condomínio, várias outras barracas, vizinhos de todos os cantos do Estado. Era bonito de ver, havia mais de uma fogueira, e os gritos de euforia começavam a soar no meio daquele matagal. Rodas de viola, fumaça, gente e mais gente bonita, casais apaixonados, crianças pequenas brincando com a natureza, tudo isso em perfeita simetria e sintonia. Os trabalhos musicais tinham hora marcada, e começariam a partir das 23h do dia oito, e pontualmente às 23h15min subiram no palco nossos amigos Bardo e Fada e Banda, e estes fizeram o seu espetáculo. A festança mais esperada dessas bandas finalmente começara e em grande estilo. A alegria era contagiante, os sorrisos multiplicavam-se a cada acorde disparado e a cada frase cantada. E uma das partes mais bonitas daquele espetáculo fora quando uma pequena fadinha subiu no palco, cantou um e outro trecho de alguma canção ao lado da fada maior. As pessoas riam, cantavam, pulavam alegremente e pareciam estar noutro mundo, totalmente diferente e melhor daquele em que estão inseridas. É meu amigo Dostoiévski, se estivesse por aqui, certamente eu o convidaria para tal ocasião. Então que venha a décima parte.