Parte V

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No dia da excursão levantei cedo, mas minhas malas já estavam feitas, arrumei-as na sexta-feira durante a tarde. O sono me comia os olhos, há dias que eu não acordava antes das nove da manhã, ainda mais, num sábado, se bem que, os dias para mim já não fazem mais sentido, ao menos quando se diz respeito à ordem. São como se tivessem deixado de existir, pois passam lentamente e de forma idêntica, pouco importa se é segunda-feira, ou quinta-feira; são extraordinariamente iguais. Acordei de cabeça limpa, livre de ressaca, graças ao acordo; tomei um banho, me ajeitei, vesti a camiseta branca e sem estampa e a bermuda que já estavam arrumadas. Sou precavido para que não ocorram atrasos, comi qualquer coisa e lavei os dentes. Fitei as malas e vi tudo em ordem e coloquei-me à rua. Carreguei meus pertences em duas viagens, precisei da bicicleta para levar a primeira parte, pois a pé, seria impossível levá-los, todos de uma vez. Por fim, Charles e Dostoiévski; eu e os meus colocamos as rodas do transporte na estrada às dez horas e ¼ da manhã, atrasados, pois um dos meus havia dormido demasiadamente, e ainda, pensado que a excursão para o centro do estado aconteceria à noite.

Chegamos lá ½ hora depois do meio-dia, mas antes, eu e os meus ficamos cara a cara com a morte, e não sei por que, alguma alma, daquelas outras dez que estavam comigo, teve a brilhante ideia de notificar o chofer que estávamos na contramão. Era um trevo bem confuso, numa espécie de subida que se perdia no horizonte e em curva, e inadiavelmente ao ser notificado o chofer parou o carro, deu marcha ré e nos salvou. Uns quarenta segundos depois, já na via certa, passou por nós e no final do trevo outro carro a uma velocidade desconhecida, mas seria ela, suficiente para arrebentar qualquer coisa ao meio. Após o cagaço, o mais certo era uma bebida, mas não havia trago, o pacto feito na noite anterior estava em pé, havia água e energético para beber. E vejam rapazes, como são as coisas; fui eu o primeiro a saltar do carro assim que paramos, e de cara havia uma mocetona, aparentando uns vinte e dois janeiros com cabelos cor de cereja, usando botas e roupas pretas. Bonita. Quis ela saber de onde eram os meus e eu mesmo, lhe atendi, e assim, todos os outros fizeram o mesmo, desceram e sujaram os pés naquele areal misturado à relva, já que ali, terra vermelha não existia. Com todos extraordinariamente identificados e apulseirados, as pulseiras serviam como comprovante de pagamento, fomos adiante procurar um lugar apropriado para largar o excesso de bagagem.

A fome naquela altura era certeira, e tão grande quanto ao sol que fritava nossas caraminholas. Despachamos o que havia dentro do carro, deixando apenas as ferramentas de trabalho, tudo isso com a ajuda do chofer e fomos dar jeito num lugar fresco e com sombra a fim de armar as barracas. Dos meus, uns foram para um lado, outros para outro, uns colocaram-se a montar o acampamento, eu apenas deixei meus artefatos atirados no canto escolhido, e fui-me à copa, pedir meu almoço, que na verdade se resumia a uma colher (daquelas de madeira, usadas em panelas grandes), de arroz carreteiro, uma fatia de pão bem magra e algumas folhas de alface, para não dizer duas; este desaforo me custou sete pilas, mas enganava e passava por saboroso o carreteiro, mas não repeti, era demasiado caro para repetir. Quanto à fome, dava-se um jeito, havia bolachas. Alguns dos meus murmuravam indignados com o prato servido, diziam eles que por tal quantia, sete pilas, multiplicando-se por todos nós, era possível saciar-se de um belo banquete, com direito a carne e um trago de boa qualidade, e era com razão aquela reclamação. O chofer era o mais protestante, chegara inclusive notificar via telefone móvel a sua esposa, dizia que tinha horror a arroz carreteiro, ainda mais com carne moída – “carne moída, que absurdo!”, dizia ele –, e gabava-se ainda de ter ele trazido algumas coisas para comer, que segundo ele, eram melhores que o prato que nos fora oferecido. Tudo isso, me causou extrema graça, o ruim mesmo, era ter que manter o trato feito, o de não beber antes do trabalho, mas quebrei com o pacto, ao beber e com muita sede, um gole da cerveja local que lá comercializam, deveras, era saborosa, bem mais que o prato servido, bem mais. Eu me contive em tomar apenas aquele gole, o trato era que cada um de nós, poderia beber antes de tomar o palco, no máximo, duas latas daquelas grandes, porém, bebemos mais, talvez umas quatro.