Parte VI

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E trabalhamos bem naquela tarde, melhor do que o esperado por eles. Que bom! Ademais fora esta a primeira vez que saímos do pago a fim de nos mostrar. Alguns mais velhos gostaram do que viram, tocamos a essência, tocamos na alma daquela gente que lá estava; assim é o blues, assim é o róquenrôu quando não se pensa somente em dinheiro. A festa seguiu adiante, e outros deram sequência. Quanto à garota cabelo cor de cereja? Bom, eu dancei uma e outra canção com ela, depois, pouco nos vimos e falamos. Melhor, e, além disso, foi ter conhecido de perto outra menina, nem tão menina como pensaram os meus olhos ao vê-la em minha frente. Coisa rara de se ver, inteligentíssima e de um cabelo nem tão liso e nem por isso cacheado. De fronte mediana com covinhas nas bochechas, também do centro do Estado. Bem do centro. Deveriam vê-la rapazes.

Do mesmo modo, falamos pouco eu e ela. Fora ela quem fez o primeiro contato, pois depois de terminado, o nosso trabalho, nos atiramos valendo na bebida, e devido a isso, eu não a reconheci, (pois já havia falado com ela noutra oportunidade via internet) mas não somente por isso, mesmo se estivesse sóbrio eu não a reconheceria. Gostei da abordagem dela, mostrou muita segurança e independência ao chegar puxando papo com um cara “totalmente” desconhecido. Coisa rara de ver, eu repito aqui rapazes, coisa rara. De uma timidez profunda e muito misteriosa, olhos castanhos e de uma voz extraordinariamente agradável, de fácil oratória. Se perdermos um do outro, várias vezes, durante os dois dias em que eu, e os meus, acampamos por lá. O lugar era bonito, agradável, e bastante abafado. Ameaçou chover, na verdade caíram uns pingos fracos do céu, bem fracos e que se confundiam com uma fina garoa, o tempo, às vezes, passava de um calor infernal para um frio adorável, perdi as contas de quantas vezes fui à barraca largar ou pegar a gandola.

Gente bonita não faltava naquele lugar, bonita de espírito e de atitude. Ninguém se importava com a aparência alheia, coisa comum nos pequenos centros urbanos. Muitos eram barbudos, e algumas delas exibiam cabelos de cortes exóticos, alguns eram coloridos. Não havia julgamentos, nada que pudesse tirar o riso do rosto daquela gente. Estávamos todos em casa, de mãos dadas com a natureza que nos cercava. Havia um morro, altíssimo, na verdade mais de um, porém, um deles eu tive imensa vontade de escalar, mas a mata era demasiadamente densa, poderiam existir ali bichos peçonhentos, dessa forma, não me atirei, no máximo cheguei à cerca que servia de divisa da área em que estávamos. A paz reinava naquele lugar, não houve um único registro de rebelião. Não havia motivos para tal. Diferentemente do que acontece pelas ruas e bares noturnos de uma cidade. Lá havia mato, harmonia e nada mais ao redor.

Em nosso “condomínio” quatro barracas, todas muito bem armadas e protegidas para qualquer tipo de eventualidade. Um saco de dormir também, este colocado entre as barracas a fim de proteger um dos meus que nele dormiria ao calar da noite, que por sinal, prometia ser bastante fria. Maravilha! Meados de janeiro e um friozinho, querem coisa melhor que isto rapazes? Talvez um vinho barato, uma garota, não precisa ser das mais bonitas, mas que não seja esta moça, desprovida de conhecimento musical e literário, afinal, o diálogo é impreterivelmente necessário em qualquer tipo relacionamento, seja ele amoroso ou unicamente amistoso. Havia várias delas por sinal, mas a mim naquele momento, apenas uma serviria. E não era a moça dos cabelos cor de cereja, que apesar de ser, muito bonita e esperta, não era por mim que se encantava e sim por outro e, quiçá este outro, nem ali estava. Bastaria para mim, a moça dos olhos castanhos e de covinhas no rosto. Seria demais, demasiadamente demais. Sonhos a parte, à tarde fora algo magnífico. Abriram-se as portas da livraria, e os livros ampliaram a nossa percepção mediante todas as coisas inanimadas e animadas que por ali estavam. As histórias contadas por eles eram engraçadíssimas, as gargalhadas eram intermináveis. Uma tarde muito alto astral.

A noite começou fria, como haviam previsto. A canseira do dia bateu com força em minhas pernas, como se eu tivesse sido surrado, elas doíam, pediam um descanso. Dei isso a elas, porém, de contrapartida sacrifiquei alguns trabalhos autorais que eu gostaria de ter visto, mas os ouvidos ainda ouviam, e estava para começar uma das principais razões que me fizeram sair em excursão, além do próprio trabalho. Estava por começar algo que até então, eu recordava somente através de flashes repentinos, são os males de misturar sal, limão e cachaça em quantidade desconhecida. Mar de Marte estava lá. Assim que soaram os primeiros acordes daquela psicodelia, saltei barraca a fora quase correndo e dei prazer aos meus ouvidos e olhos, ao menos isso. É John Bonham, eu não te vi ao vivo, mas parece que o senhor estava lá também, encarnado no couro daquele rapaz.