Parte VII

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Assim que saciei meus ouvidos e olhos pus-me a dormir, afinal, eu não aguentaria passar a noite inteira aceso. E vejam rapazes: tentem adivinhar quem estava lá com seus cabelos enferrujados? Não poderia ser outra pessoa senão ela, em carne e osso, mais ossos do que carne. A moça que te apresentou a mim, Charles. Ela mesma. Com um cabelo comprido, até estranhei, mas gostei de segunda impressão. Bem cacheado, não parecia pintado; cumprimentei-a, e ainda, no dia anterior, enquanto trabalhava dediquei a ela uma ou duas canções não me lembro, parece que foi. Disse-me ela, que gostou, mas depois, não nos falamos mais, nem à noite, e tampouco no outro dia. Ela parecia demasiadamente ocupada com suas amigas, uma de pele bastante clara, e a outra de pele bastante escura. Que trio! Uma vermelha, uma amarela e uma preta.

Já no domingo, todos acordados e de banho tomado, decidimos comprar alguma coisa de comer, pois, carne moída com arroz mais uma vez seria horripilante, nada contra o prato servido, mas a fome era tanta e o dinheiro insuficiente para tal. Com cinco pilas de cada um, arrecadamos cinquenta. Eu e o chofer saltamos do acampamento a fim de achar comida.

Feito isso, voltamos com alguns quilos de coxas de galinha, pães e maionese. Catamos a lenha para fazer o fogo. Trabalho em equipe. Bastava apenas esperar o fogo terminar o seu serviço.

Comemos. Credo. Parecíamos estar em guerra, pela forma que atacamos aquelas coxas assadas. Não estávamos providos de talheres, muito menos de pratos. Com a mão mesmo cada um se virava como podia para dar fim às coxas, aos pães e à maionese. Deu na tampa, sobraram umas quatro ou cinco que foram devidamente estocadas num saco plástico, longe de qualquer praga que pudesse contaminá-las. Os trabalhos da tarde de domingo se deram início por volta das catorze horas e, em bando, fomos para a área central. Lá a vi novamente, a moça das covinhas e de boa fala. Desta vez acompanhada de uma amiga, não lembro muito bem desta amiga, mas isto não vem ao caso. Vejam bem rapazes, ela estava somente na presença de uma amiga. Em dois dias eu não vi um homem sequer fazer a frente a fim de cortejá-la, que desaforo, uma garota daquelas não merecia tal coisa.

Desta forma coloquei-me à disposição dela para que me desse um bolo. Era visto que o faria, afinal de contas, ela estava ali não para azarar alguém, ou ainda, dar chances a outrem. Mas meti a coragem na cara e me dirigi a ela, não havia o que temer, e não vejo nada de mais nisso. Disse a ela tudo o que queria dizer e, evidentemente comi um bolo do tamanho da festa. Mas um bolo daqueles, foi muito bem vindo, esperado e apreciado.

Como não havia mais nada a ser feito, nós, eu e os meus, entupimos a cabeça de cerveja. Deliciosa aquela cerveja provinciana. Saborosa, douradinha. Deram-nos alguns pilas pelo nosso serviço, e boa parte dele foi gasto com cerveja, sem nenhum arrependimento. Ofereci à moça das covinhas, bebemos uma e outra cerveja juntos e depois de um tempo, ela sumiu, acho que fora aí que ela se colocou de volta para a sua terra natal. A festa chegava ao fim. Antes, enquanto ainda havia fichas de cerveja nós gastávamos sem dó como se elas fossem moedas de ouro, valiam muito dinheiro, valiam a nossa euforia e sede. Dos últimos a trabalharem naquele palco, um dos artistas se dizia missioneiro, vários foram os gritos de bolo frito disparados contra ele. Era bastante divertido o trabalho feito por eles, colocaram risos nos rostos que por ali estavam, e a maioria deles deitados sobre o tapete de grama verde. Eu e os meus, estávamos todos ali. Borrachos, risonhos, eufóricos e felizes da vida. Em paz!

E assim colocamos os pés de volta dentro do carro, a noite havia dado as caras. Nosso acampamento fora desarmado ainda no começo da tarde, para que pudéssemos prestigiá-la. A ida fora agendada para as vinte horas e trinta minutos, mas havia fichas que valiam cervejas em nossos bolsos, era preciso gastá-las a qualquer custo, trazê-las de recordação seria uma ofensa das mais graves. Não acham rapazes? Evidentemente que sim, ademais a cerveja não pode ser deixada de canto, o trago deve ser consumido até o último gole depois de comprado. Com gritos de protesto vindos de alguns dos meus, que ansiavam a nossa partida embocamos pra dentro do carro, ¼ de hora atrasados com as mãos recheadas de latas de cerveja. O que nós não bebemos na ida, nós bebemos na volta. De diferente apenas o assento, de primeira eu estava no fundo, e agora no meio do carro e ao lado da porta.

Chegamos extasiados, com certa tristeza embutida nos olhos só de rever novamente o asfalto e de sentir novamente o cheiro citadino, faltava aproximadamente dez minutos para a meia-noite de segunda-feira.