Parte VIII

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Sim, eu sei meu caro amigo Dostoiévski. Estou em dívida com você e ainda não o li por completo em “Humilhados e Ofendidos”. E não sei em qual dia da semana, que deixei de fazê-lo. Renovei o contrato que fiz no banco de livros do município, e ainda assim, não o terminei. Completou aniversário de um mês, aqui em casa, esta edição de 1944. Mas vamos adiantar um pouco a conversa para não deixar os meus sem uma breve explicação. Vamos dizer a eles que depois daquela excursão muitas coisas aconteceram. Incluo aí separações. Amorosas e profissionais. A primeira por sinal, nunca é bem recebida, quanto à segunda, muitas vezes, vem de bom grado. Pois bem, vamos a eles então. É preciso ter muito cuidado nesta hora, pois a lei está sempre do lado mais forte da corda e prestes a ceder do lado mais fraco, então, qualquer palavra escrita por aqui pode servir de prova contra eu mesmo num futuro processo judicial. E não pretendo ser preso, como foi o amigo, mesmo que por pouco tempo, acho que não vale à pena arriscar essa “liberdade” que temos. Na cadeia pelo que ainda sei não é servido vinho, então está bom assim do jeito que está. Mas isso faz de mim um cagão, portanto se continuar assim, com medo de coisas idiotas, nunca eu serei visto como o amigo é até hoje, depois de morto. Um dos meus amigos, o mais escuro (aquele da serenata), perdeu sua garota. Lembro-me claramente da noite em que ele revelou tal assunto, e com certa mágoa no peito relatou o seu sofrimento. Estávamos todos num barzinho desses de esquina falando de tudo um pouco. E quando digo “estávamos” me refiro a mim mesmo, ele e os outros dois amigos e colegas de trabalho, ambos bem mais claros, de olhos verdes e nariz bastante fino. Pois bem, em seguida, bebemos mais uma boa quantidade de trago a fim de esquecer toda essa história. E isso tudo meus prezados, fora uns dez dias depois daquele último domingo por mim relatado. Apenas para que vocês saibam em que dia estas coisas se deram início.

Enfim, separações amorosas para um lado, vida para o outro. O mês do carnaval nos batia com força na cara e as propagandas televisivas mostravam bundas para todos os lados. Pretas, brancas, amarelas, geralmente bem pintadas com algum tipo de tinta especial para corpos femininos. Cantos e batucadas anunciavam as escolas que desfilariam nas tais “marqueses do Sapucaí” do mundo a fora. Alheios a isso, tínhamos um compromisso datado e agendado a mais de mês. Era chegado o momento em que trabalharíamos pela cena citadina, pelo desenvolvimento cultural destas bandas, e quando falo “bandas” não me refiro às musicais, meu caro e nobre amigo Dostoiévski, eu falo aqui, a respeito da localidade onde vivo. Pois bem, o dia era o oitavo, do segundo mês do ano, subiríamos num palco mais uma vez, com muito tesão embutido em nossos instrumentos de trabalho. Paramos no meio do mato mais uma vez. Precisamente num sítio situado nos fundões da cidade vizinha. O dono do lugar, um sujeito muito bom, que tocava o gado com sua lanterna de foque avançado. Debandamos numa quinta-feira, dia sete, a fim de instalar nosso condomínio num lugar de fácil acesso, porém, não foi nada fácil. Dessa forma, eu, o meu amigo mais escuro, e o mais claro, nós limpamos ao máximo a área em que montamos as barracas, é claro, com todo o cuidado do mundo para não devastar a natureza que nos cercava. O mais escuro montou suas coisas, mas este não ficou por lá, tinha compromissos com o governo no dia seguinte. Mas antes de tudo isso, catamos lenha para fazer o fogo e conhecemos o dono do lugar. Não havia bebida, quero dizer que não havia ao menos nada de álcool consumível. Apenas uns refrigerantes de guaraná e alguns livretos. Levei comigo meu caro amigo, o teu livro, porém, não o li, não consegui. Havia muitas coisas a fazer, acho que foi neste dia que abdiquei da leitura. E com todas as coisas montadas, a noite foi uma certeza e o breu mais ainda. Subimos o morro em busca de luz, confabulávamos eu e o meu amigo mais claro, prepararmos uma carne naquela fogueira. Até assamos, porém, aconteceram coisas que não cabe aqui dizer, mas para resumir, havia mais terra e cinzas naqueles espetos do que carne, devido à quantidade de vezes que eles caíram no meio da fogueira por mero descuido. Nessa altura o mais escuro já havia ido embora, então, novamente fomos, eu e o meu amigo mais claro, em busca do único lugar provido de luz naquele mato cerrado: a casa onde parte dos meus se abrigavam. Havia de janta uma lentilha e mais alguma coisa, mas isso fica para a próxima parte.