Perguntem ao pó

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Ela era uma boa e jovial mãezinha que já havia se acostumado a limpar as fraldas da sua pequena criança, quando a colocou numa creche. Portadora de um corpo esbelto, coxas bem torneadas, não muito grandes, com seios médios proporcionais a sua altura e peso, pós o aleitamento e de glúteos firmes. Ela trabalhava num escritório, que pertence ao marido, de duas décadas a mais que ela. Este quase não parava em casa e havia um forte rumor de que ele a traía com outra garota. Os trinta e três anos dela emanavam algo bom, mas nunca deixara escapar um sorriso para o seu fiel observador, pois sempre fora comprometida com o matrimônio, cujo qual, existia no civil para fins de separação ou morte, não no religioso. Mas nunca a viram, por aí, como se diz, em braços alheios se não os de seu cônjuge, ela o amava.

Bem se recorda o jovem moço de uma manhã de um sábado ensolarado, quando ele varria as folhas das árvores que camuflavam a calçada em tons amarelo – marrom, e as colocava dentro de um saco, daqueles pretos e fracos e fundos, quando ela do outro lado da rua com uma mangueira pressurizada, exterminava a sujeira com jatos de água da sua calçada de lajotas de porcelanato. Embora com condições de pagar para que fosse feito tal serviço, era ela quem dava conta do recado, para sair da rotina. Ela usava uma roupa comum, mas seu sex appeal era o mesmo que possui, quando toda produzida, vai a alguma festa acompanhada de seu encanecido e rico companheiro. Era um jeans justo, de um azul céu, que salientava as voltas do seu belo par de pernas e, a bota de borracha dava um grau de fantasia, aliado ao belo decote em v de uma blusinha preta. Na oportunidade e à distância ele, o amante secreto, não pode deixar de perceber o quão lindo era o busto cor de pérola da sua matrimoniada paixão. Sinceramente ele, ali, quis largar o saco de lixo e a vassoura, tudo o que lhe impedia a fim de apreciar tal sabor.

Outro dia, sem lembrar a data, foi num dia desses da semana, o jovem e discreto amante se deu ao luxo de sentar à sombra e na sua calçada, por volta das quatro e trinta de uma tarde também ensolarada, embora ele não se afilie muito com dias deste tipo, pois prefere os frios e acinzentados dias do inverno, colocou-se a ler uma obra literária de algum escritor europeu. No folhear das páginas, no outro lado da rua ele a viu, bela e agraciada pelos céus. Desta vez um tecido flexível e negro cobria os seus contornos, dando mais ênfase em suas curvas. Notou o safado e proibido amante, com olhos de águia, não somente neste detalhe, mas no cabelo recém chegado da estética com as pontas devidamente aparadas, em forma de sorriso, bem penteado, liso e pintado de um tom rubro-negro que dava um quê a mais nos detalhes. Será que aquele velhote percebera isso? – pensava ele.

De verdade, nunca passou pela cabeça dele ultrapassar a barreira do olhar, mas às vezes uma loucura sorrateira batia na porta do calmo e belo retiro do indivíduo, de que ele fizesse o uso da coragem de um cão enraivecido e extrapolasse os limites da rua que o separa da sua diva, para que enfim a tocasse. Mas, como fazê-la se nunca na vida ele teve um sinal? Nem um piscar de olhos. Unzinho. Nada. Noutro dia, ou ainda, noutra noite ela dobrou seu carro preto, duas portas, segunda e última edição, de uns dez ou onze anos de fabricação, geralmente o carro bom fica com o marido, vinha ela reto na direção do sagaz e pobre jovem que parou e tentou olhar através do vidro o rosto dela, porém nada viu devido o pretume do insulfilm, se ela o notou, é difícil saber. Sete ou oito dias depois, nada têm acontecido, porém o astuto e apaixonado rapaz continua lendo seus livros de escritores estrangeiros e a previsão é de que a chuva venha e consequentemente a sujeira tome conta novamente daquela calçada. Perguntem ao pó.