Separados um do outro

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 Se ela achasse que seria fácil não o faria, pois ela nunca gostou de coisas fáceis. Era um feriado eu bem me lembro, ela me disse que não estava mais a fim de magoar e queria dizer adeus, mas não sabia bem como fazê-lo. Eu lhe disse o óbvio: diga que não gosta mais e que já não consegue mais fazer por ele nada, do que tu conseguirias fazer por alguém que amasse com todas as forças. Eu não a culpo, e não o culpo, nessas coisas é complicado eleger um culpado, não foram por votos que os dois ficaram juntos, eles simplesmente ficaram.

Chegou o dia e era esperado que chegasse e nada dura para sempre, a garrafa logo chega ao seu fim e a ressaca bate a porta no outro dia sem piedade, o amor chega ao sem fim do mesmo jeito. Causa enjôo, causa choro e vômito em esquinas alheias. Foi assim que ele recebeu aquela triste notícia, sem cuspe e sem nada. Ela se preparou antes, lhe deu sinais previsíveis não aparecendo nas redes durante um bom tempo, sabendo que ele era dominante nesta área e recém formado em Sistemas de Informação, mas mesmo assim ele não notou, pensou apenas que sua internet estava com problemas. Não deu certo e ela teve que falar pessoalmente.

Matou-o, mas por uma boa causa e lhe deu vida, lhe deu chances de encontrar o verdadeiro sentido de estar vivo por mais um dia, lhe deu sentido de continuar mexendo nos computadores, embora ele quisesse eliminar todos da face da terra, pois nada mais fazia sentido. Nada, nada. Ele era uma mistura de escuro com solidão. Um projétil disparado para o além. Um cão sem uma lua pra uivar. Só que ela fez o que tinha que fazer, seria muito pior mostrar a ele uma lua sem brilho, dar-lhe uma arma sem munição e oferecer uma luz acesa para ele. E depois disso, ela também quer amar, quer dar tiros por aí e quem sabe até matar.

Matar alguém de tanto amar, mas ele, ela não conseguiria. Ela não conseguiria mais nada ao lado dele, nada nem a morte. Que ele um dia entenda que o amor é uma coisa que não se força, que não se escolhe, e sim que se sente. Ela vai continuar jogando o seu cabelo liso e negro ao vento, lançando o seu sorriso mortífero em direções alheias, menos às dele. Se for doer, que doa com intensidade, com verdade é o que ela pensa. Que não doa de mentira, de mentira já basta às novelas, e a vida dela não é uma novela, é um seriado com inicio, meio e outra temporada. Ela é bonita, ele não é dos feios e é por isso que ela acha que faz o certo.

Paciência e beleza fazem parte dos relacionamentos, é o que todos sabem e dizem por aí. Ela teve e tentou ao máximo procurar dentro de si alguma maneira que a fizesse continuar, mas não achou, não encontrou nada que pudesse reescrever a história, não encontrou porque o que ela tinha com ele era uma estória que pra ele era história. E ela lhe contou, foi bem assim: eu não te quero mais, chega estou me enganando, não é comigo e não é contigo, não existem problemas, a culpa é do amor que não nos escolheu, é tudo culpa dele, abre os teus olhos e analisa, mas um dia ele vai nos escolher, nós estando pra sempre separados um do outro.