Sinal de fumaça

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Lá vai ele em direção ao bar de sempre, ver os amigos de sempre que nunca vê durante a semana e que raramente aparecem no bar. Beber o de sempre e sentar no banco de sempre em frente ao palco. Roque já viajou, já tocou o foda-se em festas alheias sem querer saber o que os convidados pensavam, ele é livre e já viu filmes que quase ninguém assistiu; e se assistiram têm vergonha de contar a respeito, pois são considerados imorais; estão sobre a sua estante comprada num desses móveis usados, ao lado o toca-discos e mais ao lado uma televisão e um reprodutor de dvd’s. Roque assistiu todos e não se cansa de revê-los, bem como seus long-plays, ele não se cansa de ouvir o chiado misturado aos solos de guitarra do Jimi Hendrix. Na mesma noite no bar, ele colocou os olhos numa garota, 1m67cm, quase 18, talvez 19, cabelo encaracolado até o ombro cor de caramelo. Ele nunca a viu por ali, e a forma como ela olhava os quadros da parede denunciava.

Roque observou cada detalhe da moça, dos pés até a testa. Por que ela estava ali? O que ela queria? Cheio de dúvidas foi até ela, se apresentou, e educadamente com um sorriso ela lhe cumprimentou, disse o seu nome, Sarah. Sem perguntar convidou-se para sentar ao lado dela, ela aceitou, quase de bom grado, afinal ela nunca tinha o visto, mas ele também não a conhecia, estavam iguais. Ela estudava, trabalhava e gostava de ver shows de bandas desconhecidas que poucos sabiam da existência. Ele também, mas não pareciam dois siameses sentados juntos à mesma mesa, vez e outra um silêncio tomava conta, dando tempo para molhar suas goelas e escutar a banda tocar. Aos poucos as vogais saíam do par de bocas formando uma conversa amistosa, o assunto era bom, até que Sarah levantou-se e foi ao banheiro. Ao retornar, ela sentou-se e disse-lhe que estava de saída, lhe deu um número de telefone e foi-se dali sem dizer mais nada.

Ele seguiu bebendo, olhando fixamente para o pedaço de papel-higiênico onde Sarah tinha escrito aqueles oito dígitos, colocou-se a pensar o que faria a respeito, se o guardaria ou não, fez a primeira, anotou o contato e guardou o papel dentro da carteira. A banda tocava sua última música quando ele decidiu ir embora e não havia nada que lhe prendesse mais alguns minutos por ali. Restavam apenas pessoas desconhecidas que bebiam suas cervejas querendo se esquecer de alguma coisa, do mesmo jeito que Roque. Talvez aquela sequência numérica lhe desse uma esperança de que conseguiria fazer como fez noutras vezes, esquecer de algo que não vingou não por culpa dele, e nem por culpa de outrem, algo que simplesmente não brotou. Voltando por um canto escuro da calçada, ouvindo seu rádio de bolso ligou pra Sarah, era mais ou menos duas e quinze da manhã, ela não atendeu. Era visto, se ela saiu do bar, era porque já não queria mais conversa, mas o que ela quis dizer com aqueles números?

Passou uma semana e nenhum sinal de fumaça pelo ar, tanto de Sarah, quanto de Roque, os dois pareciam munidos da tática do silêncio. Lá pelas tantas, um toque, era ela dando indícios e imediatamente ele ligou. Era um alarme falso, talvez só pra ver o grau de interesse dele e ele caiu feito um patinho na cilada, mostrando interesse a quem lhe mostrava as garras. Sarah não deu mais sinais, pois sabia que a presa era um alvo fácil e que no momento que quisesse a teria. Roque quis apenas escutar mais uma vez o timbre da voz de Sarah, que não tinha nada a ver com o timbre Mallu Magalhães, ainda bem, era um tom quase grave de quem não fuma, mas de quem toma café. Era ideal. Roque não viu mais Sarah, Sarah não viu mais Roque, e nem as bandas independentes puderam tocar seus roques para que eles pudessem ouvir e curtir. Ambos sumiram, se escondendo um do outro, pois se no acaso se vissem, ninguém sabe o que poderia acontecer, nem mesmo os dois.