Trio elétrico

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Era um sábado. O sol a pico queimando a pele e qualquer coisa que se colocasse em sua frente. A rodoviária não era tão longínqua, mas parecia estar a quilômetros de distância devido ao forte calor. As canções que eu ouvia ajudavam e a sensação de estar derretendo sobre a calçada diminuía. Havia pouca sombra e a garrafa d’água estava no fim.

O rumo estava certo e o carnaval no seu início. Os bares distribuidores com longas filas. As moçoilas com seus trajes curtos e com seus copos pendurados no pescoço se dirigiam para as concentrações. E eu suado, caminhando em direção à estação. Por sorte descolei uma carona com um velho conhecido. Velho na idade. Há poucos meses que o conheço. Desliguei o rádio para que eu pudesse conversar.
Ao chegar, agradeci a carona e fui reto ao guichê comprar o bilhete. Duas horas e meia me separam do destino. Duas horas e meia de música erudita me esperavam. No set list algo especial, que levasse a minha mente para longe deste lugar e de todas as batucadas que estavam por vir. Strauss, Paganini e Beethoven, este foi o trio elétrico que fez minha alma viajar.

Mais uma garrafa d’água e tudo pronto. O motor havia arrancado e deixado para trás aquele cheiro de bebida e as moçoilas enlouquecidas. Porém algo muito melhor me esperava e a cada metro rodado as nuvens mudavam de lugar e forma. Uma se parecia com um cachorro, outra com um gato, ou era o som do violino de Paganini que me fazia imaginar estas coisas. Do meu lado a mochila entupida de roupas.
O bilhete indicava a poltrona 08, mas neste tipo de viagem o que menos conta é o número do assento. Fui lá pra traseira do ônibus do lado direito, no corredor. O barulho do motor atrapalhava, era um ônibus velho e todas as janelas estavam abertas, o vento esburacava as cortinas que se batiam uma nas outras. Parecia que iam estourar a qualquer momento e voar sobre a cara de algum passageiro.

Concentrava-me em Beethoven nessa altura e olhava o horário de quarto em quarto de hora. A velocidade não ultrapassava os 60. Céus que buraqueira! O meu time perdia de um a zero, informação recebida com certo atraso e via torpedo, pois na estrada sinal de telefone não existe. Recebi próximo à província de São Luiz. Quando paramos, quis saltar porta afora e pegar um litro d’água, opção negada pelo motorista. A água tinha acabado, faltava muito chão pela frente e minha boca estava tapada de poeira.

Beethoven deu lugar a Strauss na hora que o motor enguiçou ao sair da estação da província sãoluizense. Culpa do calor, o motor estava em cacos, talvez superaquecido. Geringonça, eu pensei. Uns dez minutos de espera até que o motor desse um sinal de vida. Funcionou! Para a alegria de todos. A velocidade diminuiu dos 60 para os 50 e de pouco em pouco um passageiro pedia para descer. Assim na estrada, no meio do mato. Talvez em alguma entrada de estância.

Finalmente! Depois de umas dez ou quinze paradas cheguei a meu destino, cansado e com sede, mas lá estava ela. A minha espera, sorrindo e feliz pela minha chegada. Passou a sede, passou o cansaço. Passou tudo! Foram três dias magníficos, insuperáveis. Carnaval assim eu quero todos os anos. Quanto aos detalhes, cada um sabe o que fez de melhor neste carnaval.