A trufa

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Surpreender não é uma atitude comum à maioria das pessoas. E surpreender alguém que conhecemos – e que nos conhece – há muito tempo, é mais incomum ainda. Mas eu estou me referindo a surpreender de um modo especialmente marcante, comunicando sentimentos e afeições de um jeito que não se esquece, que não se deve esquecer.

Então, um dia, movida pelas coisas que sinto, decidi escrever a um amigo enviando-lhe junto da carta uma trufa. Não sei como ele recebeu o “presente” inusitado, provavelmente com surpresa, acredito. Era a páscoa de 2003 e havíamos nos conhecido há uns dois ou três meses. Fiz a remessa pelo correio e depois do feriadão voltamos a nos encontrar na segunda-feira. Ele também me escreveu, não apenas daquela vez. Houveram outras e guardo suas cartas como uma relíquia afetiva de inestimável valor. O que também me causou grata surpresa. Não esperava que escrevesse. Anos mais tarde, voltei a enviar-lhe uma trufa. Desta vez para marcar o dia do amigo e relembrar aquele momento, repetir a surpresa. Gastei vinte e tantos reais para enviar uma, apenas uma trufa, de um ou dois reais, por sedex daqui a Porto Alegre. Fiquei imaginando qual seria a reação de meu amigo ao abrir a embalagem e encontrar a trufa perdida em meio a um monte de papel amassado e um bilhetinho no melhor estilo “recordar é viver”, brega total. À noite, recebi uma ligação:

-Alô.

-Alô, a senhora tem interesse em comprar internet?

-Nããããao! Obrigada.

-Nã………. bip, bip, bip,bip,bip

Não reconheci a voz e desliguei com urgência e irritação. Também pensei: que tipo de atendente de telemarketing é esse que liga perguntando se tenho interesse em “comprar internet” a essas horas da noite? (passava das 21h e dada a incorreção da abordagem, pensei se tratar de um “retardado”). Para evitar o incômodo recorrente, caso o rapaz insistisse em ligar novamente, desconectei o telefone da tomada. Em instantes uma mensagem SMS piscou no visor do meu celular. E de forma muito objetiva, a mensagem continha uma ordem expressa: "-Deixa de ser grossa e liga esse telefone!”. Era ele. Caí na risada e respondi por SMS: “Viu só no que dá ficar fazendo brincadeira sem graça com gente estressada pelos operadores de telemarketing?”. E pluguei o fixo, que tocou em instantes. Continuei a rir quando atendi. Ele também. Rimos juntos e muito. Recebera a trufa naquele dia, à tarde, e ligou para agradecer. Disse que foi muito legal resgatar aquele momento. Fiquei feliz, pela certeza de que aquele gesto tão inusitado ficara duplamente registrado na emoção de meu amigo. Quatro anos depois, fiz coisa pior: ao concluir o curso acadêmico, tomei a liberdade de selecionar fotos individuais, da formatura, minhas e dele e mandei fazer uma montagem num quadro 50×70 ou mais, não lembro. Dessa vez ficou assustado, não sabia o que fazer com o quadro, como justificar as fotos para a família (o que em momento algum julguei ser necessário), futuras namoradas e até uma provável esposa. Disse que era incomum demais e que eu haveria de concordar que “ninguém faz uma coisa desse tipo”. Ninguém é muita gente. Eu fiz. Delicadamente, temendo que talvez pudesse vir a me magoar, disse que entendia o significado do gesto e que sabia que sou uma pessoa muita sensível, capaz de ver bem além do que a maioria das pessoas, que “não enxergam mais que um palmo adiante do nariz”, palavras dele. Mesmo assim continuou desconcertado e acabou sugerindo que eu mesma ficasse com o quadro. Aí então, fui categórica e respondi: “– Fiz o quadro para você, para registrar o tempo em que estivemos juntos, celebrar nossa amizade, nossas trajetórias e conquistas, por que nossas histórias de vida são muito semelhantes, temos muitas afinidades e somos muito parecidos, faça com o ele o que quiser”, e até brinquei: pode colocar no quarto da empregada, na casinha do cachorro (não caberia! Rsrsrsrs) ou quem sabe oferenda para Iemanjá?!”. O “grilo” afinal era dele, não meu. E de novo embarquei a surpresa para Porto Alegre, dessa vez de ônibus, embrulhado em plástico bolha, papel pardo e muitas e muitas voltas de fita adesiva para garantir que nenhum sinistro acontecesse pelo caminho. A reação ao desfazer o embrulho deve ter sido de espanto e alegria, “só uma louca como ela para fazer uma coisa dessas”, deve ter pensado. Por fim, agradeceu e disse que o quadro ficara muito lindo. De fato ficou. Um dia recebi um torpedo: “–Me mudei e coloquei o quadro na parede, que até então estava em cima do guarda-roupas”. Hoje o quadro está em Brasília, foi danificado durante um vôo, ao ser transportado, por falta de cuidados dos serviços aeroviários, o que deixou meu amigo muito chateado. Não sei que lugar exatamente o quadro ocupa na casa hoje, mas sei exatamente que lugar ocupa em seu coração. E tenho certeza de que é um lugar muito especial que jamais será ocupado por uma emoção igual aquela.

Para finalizar conto mais uma das minhas: de vez em quando invento de brincar de marceneira, aí vou à madeireira com meu pedido, medidas devidamente apontadas – que não tenho equipamento adequado em casa para eventuais correções e cortes. Precisava de uma tábua estreita e curta, um pedacinho de madeira, que acabei ganhando de brinde do dono da madeireira. Estávamos próximos do natal. Retribuí a gentileza enviando um cartão. Mas não só, no envelope acrescentei aquelas moedas de chocolate com timbre de um real, expressão simbólica do pagamento, na verdade, de meu agradecimento. Não sei se ele ainda se lembra do fato, se ficou surpreso, achou engraçado, guardou o cartão ou então nem deu bola. Não importa, o que importa é o gesto.

Quando alguém se surpreende, algo de fantástico acontece: o tempo fica encantado e paramos para pensar nessas coisinhas pequenas, pequenas coisinhas que valem tanto. Nem se sabe quanto.

Ninguém é muita gente. Eu fiz. Eu faço.

E você?