Amoras

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Devo ter passado pela amoreira inúmeras vezes. Com certeza passei. Passei e não a vi. Indiferente. Durante anos ela esteve ali, naquele lugar, naquela rua, num caminho conhecido, costumeiro para mim. Mas não a vi. Silente floresceu e frutificou, mas eu, distraída que estava com minha rotina, não a vi. Não notei sua presença, nem a carícia inocente dos galhos e folhas que me tocavam cada vez que por ali passei apressada, com o pensamento perdido em coisas, em coisinhas.

Foi numa manhã de primavera que pela primeira vez a notei, enquanto andava furtivamente, sentindo as notas aquecidas do sol da manhã. Respirava. Eu respirava. Deu-se o inocente encontro entre a menina e a árvore. Seus ramos tocaram meu rosto, pela ausência da poda espreguiçavam-se tomando conta da rua. Foi quando avistei os frutos. Alguns, ainda verdes, outros já maduros, tingidos pelo forte matiz que lhe deu a natureza. Parei. O tempo também parou naquele instante. Embaixo dos galhos da árvore adulta, senti-me de novo criança, e me pus a comer as amoras. Sempre gostei de frutas silvestres, especialmente as amoras, as pitangas e os araçás.

Algumas pessoas que passaram por ali, não perceberam a amoreira nem minha alegria. No túnel do tempo muitos anos e lembranças. Não sei dizer por quanto tempo fiquei ali, se dez minutos ou mais, mas o aporte à primeira infância coloriu meu dia. Lembrei-me das tantas vezes em que colhi pitangas no pomar de um vizinho. Canecos de alumínio transbordando os frutos que lavava e colocava para gelar. Alguns de cor intensa, quase negros, outros de um vermelho vivo. E todos eles eram sempre muito doces. Doces como essas lembranças.

Embaixo da amoreira, naquela manhã senti-me em casa, senti como se árvore me pertencesse. Na verdade, eu é que pertencia a ela. Senti saudade e prossegui. Os compromissos me devolviam a rigidez da vida longe de casa e também da amoreira, mas mesmo assim, tornamo-nos cúmplices e quando me afastei ela sorriu para mim. Um sorriso que apenas eu pude ver. Para os outros, ela continuaria a ser simplesmente uma árvore, mas não para mim…