Apartamentos

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Sempre me chamou a atenção a vida em dois andares ou mais. Com ou sem elevador a vida nos apartamentos esconde muitos mistérios. Altos e baixos. Metáfora comum.

Quando a noite cai e o movimento doméstico se intensifica minha curiosidade aumenta. Fico sempre imaginando sobre o que as pessoas conversam. E se estão sós, penso sempre nas razões e no que devem estar sentindo. Como nos filmes do cinema mudo tento traduzir cada gesto. Às vezes o que se vê é simplesmente solidão. Às vezes é indiferença. Às vezes incompreensão. Há dias em que os movimentos são rápidos. E nervosos. Muitos fantasmas num condomínio. Mas às vezes há também um certo encantamento. Doce enleio de amantes. Curiosidades perigosas… jovens que se encontram em grupos de estudo. Aulas de anatomia. Luxúria disfarçada em ciência.

Janelas e sacadas debruçadas sobre a noite. Sonhos. Ou talvez inquietações que chegam quando a luz do dia esmorece. Há um homem na poltrona, uma TV ligada, um jornal do dia anterior. Notícias velhas. Há um estranhamento. Um vazio. Enquanto no fogão uma chaleira d’água ferve, o denso vapor da ebulição aquece alguma alma. Café ou chá. Ou Vono. De queijo ou ervas, uma saudade que não evapora.

Chinelos sobre o tapete. Luz indireta e um espião(ã) do outro lado da rua. Olho mágico. Olho cego. No perfil da sombra, desbotado traço de um corpo. Há ausências pungentes e muitas lembranças. Sob a mesa de canto, um porta-retratos empoeirado. Foto em preto e branco. Anos 60. Juventude. Calças boca de sino. Cabelos compridos. Camisa abóbora. Cigarros.

Luzes acesas no meio da madrugada. Sedenta solidão. Água.

Baratas na louça suja. Angústias.

Tantas coisas presas entre paredes eretas. Nem mesmo a dor se verga.

Vejo crianças e brinquedos no tapete. O quebra-cabeças da vida desafiando os jogadores. O tempo implacável transformou-os em adultos que não brincam mais. Não há mais jogos de entretenimento. Nem tempo. Os riscos são reais demais para brincadeiras. As crianças aprenderam a matar. Mataram suas crianças. Vão matar de novo. E desta vez os adultos…

O chuveiro ligado e um corpo magro, o arrepio do desprezo na água morna percorre a espinha. A toalha está úmida. Os olhos também.

Na frente do espelho a mutação de um rosto. Um chambre rosa. Um quarto brechó. Um baú de incertezas.

Os filhos cresceram. A vida mudou. Ela está só. O gato de estimação na solução de formol parece estar vivo. E o disco de vinil, na faixa arranhada repete a canção do desespero. Na varanda as plantas murcharam. Nunca mais choveu. O sol mormacento secou tudo.

Olhares duvidosos no quadro suspenso na parede da sala. Ainda a mesma censura. Não há liberdade.

De repente a lua completando ciclo desfalece ao seu lado. Matéria sólida iluminando tudo. Nunca uma tristeza tão clara pode ser avistada do outro lado da rua. Depois daquela noite o dia nunca mais amanheceu…