Cansaço de mãe

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O cansaço do menino não era maior que o da mãe, mas nela, além do cansaço e do menino, habitava ainda uma tristeza. Uma tristeza evidente que transbordando do olhar desencantado, denunciava o flagelo da jovem mulher. Era parado, vitrificado o olhar, e ao mesmo tempo distante, não disfarçava a descrença e menos ainda a angústia com que suportava os dias. Eram dias desbotados, todos os dias eram dias desbotados. E a aquarela da jovem mulher já não tinha tintas com que colori-los. Nem havia dinheiro para que pudesse comprá-las. Talvez restasse, quem sabe, alguma lágrima para atenuar a cor fria dos dias escuros ou então manchá-los inevitavelmente. Era o risco. Tinham pouca sorte. Ou nenhuma. Sempre fora assim.

Na lotação, o ir e vir tedioso, o ir e vir para onde? Para longe? Perto? Futuro? Destino? Poucos elementos para forçar previsões, pois de tudo, nada sabiam na inclemente repetição dos dias, senão que era certo o desespero. Das lutas e combates, conheciam somente as derrotas. Não tinham armas. Nenhuma defesa.

Em seu regaço, o menino sonolento, corpo molinho, deixava a cabeça pender, enquanto ela afagava-lhe o rostinho. Havia pureza no rosto do menino, a pureza inocente de que as crianças gozam na tenra idade. Depois nunca mais. Nunca mais, depois de crescidas…

Nunca soube de um olhar que não encontrasse repouso na linha imaginária do horizonte. O que vemos, não vemos. Se dormimos, sonhamos. Ela não sonhava. Talvez sonhasse o menino. Mas o olhar da mulher nunca teve descanso, nunca conheceu o horizonte (enganoso), nem sua ilusão. Estava acostumado a coisas mais duras, a coisas reais e às linhas do tempo impiedoso e apressado. O que seria do menino? Não comera maçãs naquela manhã, nem calçara as meias, tinha os pés frios, os lábios ressecados pelo vento da tarde, já era noite, tombara o dia nas recordações. Não fora à escola, nem à devoção. Nada fizera. Junto da mãe, cumpria as obrigações, até mesmo as que não tinha. Comer com garfo e faca. Não sujar a roupa. Dormir cedo. Acordar cedo. Morrer cedo. Quem morreria? Ela ou o pequeno? Algo que justificasse a tristeza da mulher e a pureza do menino. A morte justificaria.

Muitas vezes vira a mulher e seu filho, ela sempre com a mesma preocupação e agonia. Nunca entendera. Nunca entenderia. Na vida recusara o cansaço de mãe. Restara-lhe o de filha.