Com o coração

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Na vida só o que fazemos com coração tem sentido. O coração é sempre sábio e seus erros são bênçãos que nos ensinam a ser “mais gente, menos máquina”, porque quando agimos com o coração são os sentimentos bons que nos movem. Acompanhei integralmente a segunda temporada do programa “The Voice Brasil”, com S, de Sam Alves. Quando ouvi aquele menino cantando fiquei encantada, e meu coração me dizia que ele seria o vencedor. Apesar dos sensacionalismos midiáticos capazes de criar ídolos relâmpagos apenas para movimentar e enriquecer o segmento musical, o “bebê da caixa” como vinha sendo chamado, venceu. Venceu por ter talento e um grande coração. E aproveitando a onda sentimentalóide produzida pela “caixa”, preciso dizer que a sabedoria divina está em tudo. O que faz alguém abandonar uma criança à porta de uma casa e nunca mais voltar? O que faz alguém fazer isso, podemos pensar, é a falta de um coração. Mas fiquei pensando, pensando que é preciso ter um coração sábio, sábio ao ponto de desapegar-se para permitir a uma vida melhor sorte. Pensei que a pessoa que deixou o menino na porta de uma casa desconhecida desejava que ele tivesse melhor sorte do que a que poderia dar-lhe. Melhor sorte teve ao encontrar também um coração pronto para acolher, para aceitar ao invés de fazer uma simples notificação aos órgãos responsáveis e entregar aquela vida tão frágil ainda à solidão de um abrigo. Que planos Deus tem para nós não sabemos, mas os planos se cumprem, com nosso esforço ou sem ele.
Também fiquei pensando que sejam lá quem forem os pais biológicos de Sam, suas histórias talvez nunca mais venham a se cruzar. Certamente a mãe que gerou um ser tão delicado e doce não seria capaz de reconhecer hoje a criança que deixou para trás. Não sabe, portanto, que ele se tornou um jovem belo e talentoso, mais que isso: iluminado. Parece uma história triste, e é. Uma história triste com final feliz, porque esse menino encontrou o amor de que precisava para seguir adiante.
O fato é que de todas as vezes em que vi e ouvi Sam cantando no programa, meu coração se encheu de ternura e emoção. Vi nos olhinhos ansiosos do menino incertezas, medo talvez, mas também sua inquestionável humildade. Sem pretensões entregava a voz e o coração. Entregava seu dom, sem saber ao certo onde ele poderia levá-lo. E ainda não sabe. Não sabemos. A consagração de um artista não depende apenas de talentos. No Brasil, depende, sobretudo, de interesses econômicos. Uns vingam, outros não. Desejo que Sam vingue, que possa alcançar o coração das pessoas, mesmo as mais rudes, as que verdadeiramente precisam ser tocadas e especialmente aquelas que implacável e impiedosamente já começam a atacá-lo nas redes. Maldade. Despeito. Muitos criticam o fato de adotar tantas canções americanas, outros taxam suas escolhas de tendenciosas. São cruéis. Não importa afinal o que ele cantou, mas sim como cantou. Estratégias e marketing? Talvez. Ou talvez a maledicência dos acusadores. Há muitos talentos no Brasil. E também muito lixo. Mas um lixo que lota shows e vende discos não padece difamações, ao contrário enquanto dá lucro é “idolatrado”.
Sempre haverá opiniões divergentes, mas isso não autoriza os críticos a agirem de má fé e pisotearem a história de vida de alguém que venceu por seus próprios méritos como fez Zélia Duncan quando disse que Sam sofre da síndrome do vira-latas. Fiquei revoltada. Achei um desrespeito. Eu que reverenciava o talento desta artista, agora vejo que é uma pessoa de má índole e de caráter duvidoso. Não ataca para se defender. O faz por maldade, ou então para “aparecer”.
Acho inocente demais da parte de Sam idolatrar tanto Cláudia Leite, uma artista que considero “meia-boca”, nem por isso desprezarei seu talento e sua vocação. Zélia queria na final um legítimo representante da “brasilidade”. Quiçá uma Carmem Miranda que tão bem cantou os trópicos com cachos de banana na cabeça… Aff… mas, desconfio que o que ela queria mesmo era ser convidada para compor o júri técnico.
Seja como for, Sam alcançou meu coração. Esse lugar distante, maravilhoso e desconhecido. Há gente que nem sabe que tem um coração, até o dia em que ele para ou então começa subitamente a bater…