Des(humanidade)

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 Da infelicidade, restou apenas o sangue bebido pela terra ao longo do dia morno. E pensei na triste sorte que até os bichos tem na vida. No abandono, no não pertencer e no quanto é doloroso viver, sem ter para onde ir. Vivia na rua e muitas vezes, entrou em meu pátio. Quis dar-lhe um abrigo e também atenção, cuidado e carinho. Sem qualquer dúvida sobre poder retribuir-me ou não. Poderia. A natureza dotou-os de um coração terno e doce. Mas, numa noite em que tentamos recolhê-lo da rua, alguém nos disse que ele não era um “cachorro sem dono”, embora parecesse. Passava os dias – e também as noites a perambular pelo caminho cego, dos cegos homens. Assustado por ser atacado e apedrejado pela crueldade das crianças da rua que ficavam a divertir-se, lançando-lhe pedras, fazendo-o arredio e reticente a aproximação dos animais. Humanos.

Somos a pior espécie. Não sabemos dar valor à vida, exceto à nossa, que arrogantemente pensamos ser mais importante do que as outras. Não é. Desconfiado, o bichinho passava as noites no espaço frio da rua. Eu não sabia se sonhava. Talvez sonhasse com um lar, comida e água limpinha. Modesto sonho de um cãozinho pequeno.

Essa semana foi atropelado. E quando de longe avistei aquele corpinho aparentemente imóvel no meio da rua, pensei que apenas descansasse do peso dos dias, mas não. Estava morto. O corpo já rígido. Tive pena. Pensei que devia tê-lo tomado do “dono”. O dono que não tinha, que não teve. Estaria vivo. Dois dias se passaram sem que ninguém o procurasse. A morte inclemente que enrijecera o corpo, passaria a devorá-lo, brevemente. Moscas em torno do corpo inflado, a posição também mudara, a cabeça agora voltada em minha direção. Da janela de meu quarto eu o avistava e me entristecia. Pensei em removê-lo daquele “lugar de descaso”, mas faltou-me coragem.

O corpo imaterial, sua alminha de inocente bichinho, eu penso que talvez continue vagando… Pobre cãozinho. Foi recolhido pelo serviço municipal e provavelmente descartado à beira de alguma estrada qualquer. Sem distinção ou respeito. Toda vez que morre, que matam um animal, sem que ninguém se importe com isso, um pouco da humanidade morre junto.

A terra beberá o sangue, até que a marca da vida esvaída no silêncio, não possa mais ser vista. Eu, no entanto, continuarei a saber, que em minha rua, um pouco da humanidade, também morreu…