Desordens

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Todas as coisas estavam perturbadoramente no lugar, denunciando uma imobilidade perversa e cruel. Que razões teria ela para de novo deitar ordem sobre o que fora sempre igual, se em todos aqueles anos agonizaram seus sonhos mais inocentes e todas as suas incertezas? Desejara a felicidade, desejara tanto e sempre que a urgência do desejo precipitado afastou-a por completo. A felicidade não viria. Nunca mais. Não importava a ordem ou desordem das coisas. Nada mais importava.

Os sonhos da desordem progressiva – estes que valiam uma vida, sacrificados, não eram mais que desfiguradas e vagas lembranças. Então por que continuar a insistir em manter tudo sempre no lugar? Qual lugar?

Tornara-se inútil sonhar a desordem e quem sabe assim libertar-se. Vira todas as suas fragilidades serem consumidas sem receio pela ânsia de permanecer no controle. Mas como? Mas por quê? O tempo passara, a juventude passara. O tempo fazia sombra em seu corpo.

Na casa em silêncio, a mulher prostrada à luz do sol quedando-se no horizonte recebeu a noite e com ela a dor. Fizera planos. Todos desfeitos. Nenhuma outra razão haveria para que por um momento houvesse ordem. Nada mais a ser dito. Era o fim. As coisas ocupadas de si mesmas, perturbadoramente no lugar, denunciavam essa estranha condição. Era preciso desordem para que houvesse vida…