Espanador

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Agora que voltei, conto a história. No ano passado, uma amiga me disse: Fabi, tu não estás escrevendo mais? Tu tens que voltar a escrever! Não deixa o teu dom criar pó! Quando eu era jovenzinha, gostava muito de desenhar, fazia cada desenho bonito…”. Ao ouvi-la, senti melancolia e medo. Medo de realmente deixar “meu dom”, criar pó. Dom que eu nem sabia que tinha. Escrever? Não. Sentir. Sentir é meu dom. E então, estranhamente me veio a frustração: será que meu dom, seria dom suficiente para me sustentar? Pagar as contas do mês?

Água, luz, gás, telefone, farmácia, mercado, etc…, etc…, etc…. O que precisamos para viver? Sentir vale alguma coisa? Se vale, me pergunto: quanto vale?
Intimamente, ouço um gênio ruim responder que vale pouco. Não dá para pagar as contas do mês. Lá vou eu bater o ponto. Esvaziar-me. E morrer de inveja dos que exercitam (e se sustentam…) com seus dons, enquanto eu vou me esvaziando de mim nos corredores do abatedouro. Um frigorífico de almas, sangradas sem dó.

Pensei muito no que minha amiga falou. Não quero que o meu dom crie pó, por isso o espanador da escrita está cuidando de limpar tudo. Meu dom precisa estar oxigenado, precisa estar limpo, para que possa ser avistado ainda que perdido em meio ao entulho e a desordem que há em mim. Talvez eu esteja enganada e sentir ainda valha alguma coisa. Mais do que eu possa supor… talvez não pague as contas do mês, mas ajude a compreender melhor a vida… e quem sabe, a não sangrar tanto…