Impressões

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Dirigindo carregava incertezas no trânsito urgente. Incertezas e nada mais. Delas saberiam todos nos posts publicados nas redes sociais. Era uma imbecil. Um a mais entre tantos. Diferença nenhuma. Não fossem os sonhos nada os distinguiria.

Cometera muitos erros e qualquer possibilidade de corrigi-los implicava excessos e riscos que jamais assumiria. Era covarde para as consequências tanto quanto o era para as tentativas. Arrependia-se depois. Ficassem os erros registrados nas caixas de envio, blindados por senhas desconhecidas e inacessíveis, ele pensava. Tudo aquilo não fora mais que uma fraqueza, carência, insegurança talvez. Improváveis segredos que pensava nunca serem descobertos.

Em casa, a esposa aguardava o amado para servir-lhe o almoço, copo com gelo sobre a mesa, a água sendo absorvida pela toalha de algodão, tal como a dor que sentia estar sendo absorvida por sua alma. A comida esfriava, a espera crescia, a frustração também. O homem não vinha.

Não vinha por quê? Teria se cansado do sexo morno, do beijo sem gosto, das mãos frias e sem desejo? Teria se cansado da vida sem graça, sem fúria, sem sangue? Ou quem sabe cansarasse de alimentar a pálida esperança de que um dia voltassem a se amar? Cansarasse de sonhar, apenas sonhar com uma vida feliz, jamais vivê-la? Ela pensava. O tempo inquieto corria, e o homem não chegava. Ela saberia de tudo, sempre soubera, mas continuaria a fingir que não entendia nada do que estava se passando.

O barulho na chave, a frase refeita em segundos em meio ao pensamento em desordem e a tormentosa e inquietante confusão de ideias e sentimentos. Há quanto tempo ele vinha mentindo? Um ano? Dois? Talvez mais… mentiria de novo, diria que se atrasara por causa do trânsito ou então uma reunião marcada de repente, sem aviso, mesmo assim arriscou confirmar a mentira mais uma vez:

– Algum imprevisto hoje? Você se atrasou tanto que já estava ficando preocupada…

– Não. Nada. Quero dizer, o de sempre… uma reunião de última hora, para definir novas estratégias de venda.
Respirou aliviada. Precisa daquela mentira para sobreviver… precisava da mentira para que pudesse continuar a amá-lo. Precisava da mentira. Era seu único consolo. Não havia outro. Jamais haveria.