Nariz em pé, será que não é?

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Eu já gostei da Martha Medeiros. E além das publicações semanais em ZH, já li dois de seus livros de crônicas: Montanha Russa e outro de que nem me lembro bem. O primeiro, como diriam os publicitários da Skol, “desceu redondo”, o segundo tive que mastigar e mesmo assim, quase engasguei. Sempre achei que ao escrever por obrigação corremos o risco de forçar o que deveria ser um processo natural. O da escrita. E forçar, ao menos para mim, significa forçar mesmo, espreme neurônio daqui, dali e a clorofila cerebral não rende um copo, digo, um texto. Seja como for, nem sempre conseguimos ser tão criativos quanto gostaríamos, nesse caso um conselho: não escreva. Ou escreva, mas não force. Se sair uma porcaria, ao menos você não vai passar o resto do dia se sentindo esgotado de tanto “centrifugar” o extrato cerebral para extrair tão pouco. O leitor vai ficar frustrado de qualquer jeito, mas vai entender. Todos temos direito a um “dia ruim”.

Forçar é sempre antinatural. Forçar sorriso, simpatia, criatividade, sabedoria, sinceridade, seja o que for, não convence. Dá porcaria. Exceto para os profissionais das artes cênicas. Nas artes literárias, no entanto, o moribundo das letras dá início ao seu literalicídio.

De vez em quando, eu ainda leio a “Coluna da Martha”. Li, um domingo desses. Do começo ao fim, um blá, blá, blá. Desde o primeiro até o último parágrafo, justificativas, justificativas, justificativas.

Para quê? Apenas, ser “simpática”. Concluiu sofrer de prosopagnosia. Incapacidade sensorial do cérebro em reconhecer fisionomias e expressões faciais. Brincadeira, brincadeirinha. Sem graça, eu diria. Arrematou dizendo que essa estranha “anomalia” a impediu de reconhecer um ex-namorado do tempo das cavernas (essa foi a expressão usada por ela…), referindo-se aos primeiros anos acadêmico, quando ela era apenas uma estudante, aspirante a escritora e não a “famosa” Martha Medeiros. Finalizou dizendo: “nariz em pé, juro que não é”. Será que não?

Valha-me igualmente o benefício da dúvida: não acredito na vã justificativa. Para mim, arrogância não é defeito orgânico, mas de caráter, e ela, mesmo nos tempo em que “descia redondo” sempre me causou a desagradável impressão de ser aquele tipo de pessoa que olha para os outros por cima do ombro.

Às vezes eu penso que também sou capaz de causar equivocadas impressões. Quem me vê ou ouve pela primeira vez tende a ficar meio “espiado”, mas não devo ser nada convincente, porque logo as pessoas se aproximam e mesmo com respostas curtas e cara fechada, um ou outro sempre cai nas minhas graças…

No entanto, se por acaso, encontrasse hoje a famosa colunista Martha Medeiros, eu lhe concederia a benção do anonimato. Ela merece, passar despercebida. E eu, tranquilamente, poderia alegar prosopagnosia…