Náufragos

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Assistimos, eu, uma amiga e no máximo umas dez pessoas, uma peça de teatro que me marcou muito. Chamava-se “Náufragos”. Na época, lembro-me de ter ficado singularmente envergonhada ao encontrar as instalações do teatro municipal praticamente vazias, mesmo sabendo que a arte teatral, não é, infelizmente, uma forma de expressão artística e cultural das mais valorizadas, em especial em cidades do interior do Estado.

Um roteiro desafiador, encenado apenas por dois atores e poucos recursos cênicos, apesar disso uma abordagem profunda e sensível do complexo universo da loucura, ou do que pensamos que ela seja. De uma forma, ora cômica, ora perturbadora, os personagens faziam emergir a angústia e as dificuldades dos “adoecidos”. Questionavam o uso dos psicotrópicos e sua necessidade para o controle dos “sintomas” e de forma sutil nos levaram a perguntar quem são os verdadeiros loucos. Desde os conflitos mais profundos, como a manifestação da pulsão sexual (sobrara-lhes uma boneca inflável para a urgência dos instintos…) e a fragilidade emocional do doente são abordados com delicadeza. A rejeição, a busca da “cura” ou de um milagre. Tratamentos alternativos, simpatias, benzeduras na simbólica expressão da primeira água, da segunda, da terceira, como num ritual de batismo ou renascimento.

O desespero do doente que deseja libertar-se do estado patológico, rejeitando a abordagem terapêutica e o uso da medicação. Em qualquer caso, a consciência sempre alterada, entorpecida ou superexcitada. Uma vez louco, sempre louco, assim pensam os “normais”. Ficou demonstrado: não é bem assim. No palco, os loucos conversavam. O assunto? Uma manchete do jornal à época e o comentário dos “doidinhos”: “Goleiro mata, corta, esquarteja e faz hambúrguer da namorada. Ahahahahahahaha, depois, depois os loucos somos nós! Nós nunca matamos, nunca roubamos de alguém!!! Ahahahhahahahah ”.

Sempre questionei o conceito de loucura, o que na verdade me parece mais uma síndrome de desajuste “social” (nosso provavelmente, porque somos incapazes de reconhecer muitas vezes um pedido de socorro, de ajuda, paciência ou quiçá, até mesmo compaixão…), do que propriamente uma patologia. Pessoas que não aceitam, nem conseguem se adaptar – ou suportar – o padrão “de normalidade” e fazem questão de demonstrar, ou não têm outra escolha, senão fazê-lo, pagam o preço. O preço do rótulo, do estigma, do descrédito:
– Não liga para o que ele diz! Ele é louco, não sabe de nada!!!!!

Ou somos nós que não sabemos.

No mar revolto da vida, muitos náufragos, poucas boias e botes salva-vidas. No tecido azul que levemente ondulava no palco, eram dois, na plateia eram poucos, insistindo em sobreviver e resistir à fúria, a loucura dos “normais”. Uma peça para ser vista e revista muitas vezes. Na loucura. E na vida.