Noivas

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Que frias impressões me causam estes vestidos. Véu translúcido, manto fluido encobrindo um caminho de flores pisoteadas e nenhum rastro seguro. Era só uma chuva de pétalas sem perfume…

Agora, dize-me se essas almas puras ou castas existem ainda. Os véus emolduram cadáveres, num tempo ido, distante. Estão mortas, há muito partiram. Fico a me perguntar por essas mulheres e seus destinos, em quando vestiram a farda da incerta da felicidade ou da desgraça – que agora sei, fora tanta.

São noivas. E retratos. Modelos antigos. E entre o tempo em que elas existiram e o tempo em que existo muitos sonhos destruídos, perderam-se.

Eu fito a expressão indecifrável dessas mulheres e quero saber sobre sua história, sobre sua vida, se foram felizes, se amaram e foram amadas. Olhos fixos me observam presos no retrato como se me acusassem. Terei culpa? Eu que não as conheço, que jamais as conhecerei, senão nos contornos da tinta negra, agressivo contraste do papel em branco, de que terei culpa?

O que terá sido feito de cada uma delas? Imortalizadas no painel da história, sinto-as vivas. E quero saber o que sentem, o que sentiram, mas pressinto: não há tempo e é preciso seguir. Não fui, não serei noiva, jamais prisioneira de um tempo recortado, me devolvendo ao que passou…

O que elas desejaram? O que construíram? O que delas restou? Alguém me pergunta, mas não tenho respostas. Os véus eternizados pelo vidro de proteção, já puídos pelas traças, não tem beleza. Vejo o tempo consumindo tudo. Vestidos amarelados.

Uma a uma, voltarão as noivas, renascidas entre estreitamentos – da alma – e corredores de jazigos violados. Eu não sei onde estão os noivos, mas hei de procurá-los. Quero que elas descansem em paz. Eu já não posso. Sou atravessada pelas coisas que não compreendo, elas apenas se expressam por mim, não sei explicar. Nem devo.

Ps: Este material produzi durante um evento em Posadas no ano passado, quando caminhando pelo local, fui encontrando painéis com fotografias, murais e curiosas formas de expressão artística. De repente, parei ao encontrar uma sequência de fotos muito antigas, com noivas em diferentes épocas. Fotos datadas, um registro cronológico. Fiquei observando e ao observar fiquei imaginando como teria sido a vida daquelas mulheres, seus sonhos, seus medos, se foram felizes ou não. E escrevi, o que senti, ou o que talvez elas sentiram um dia…