Notas do tempo e da dor

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Restaram apenas estes quadros nas paredes, preenchendo nem sei quê. E de que sinto saudades afinal? Do quarto? Do violão? Da cama bem feita? Das torradas no café? Nada aqui me é saudade. Tudo é frio. Notas do tempo e da dor. A casa habitada por tantos objetos, silenciou dores e ausência. Foram muitos anos de labuta, renúncias e pouco amor.

Aprendi que para amar era preciso ostentação. Ao menos foi assim que me ensinaram. Não completei a lição. Fui reprovado. Anéis de ouro, dedos amputados. Preferi mãos perfeitas, ainda que nuas. Ninguém compreende. Acusam-me ainda de ingratidão. E sou grato até pelo que me faltou. Faltou-me tanto, tanto. Faltou-me a presença e foi bom. Assim, aprendi a preencher-me. Ela nunca soube o quanto a desejei mais perto e das vezes em que chorei suas exigências e caprichos, ela dizia-me sempre ser para o meu próprio bem que o fazia. Das vezes em que fui magoado por seu orgulho – ela nunca soube pedir desculpas… – compensou-me com seu “sacrifício”. O que ela talvez não soubesse é que eu nunca quis sacrificá-la. Agora está imóvel, parece adormecida. O rosto pálido, as mãos enrugadas. Em mim, um ingrato e amargo silêncio, flores que não colhi, sorrisos perdidos em dias distantes…

Ela nunca saberá como eu queria ter assistido – com ela – aquele jogo do Grenal naquela quarta-feira em que precisou sair de casa, pois precisava pagar a camiseta do time – que não lhe pedi. Restaram-me as pipocas. E recomendações. Muitas recomendações. Trabalhava, trabalhava, trabalhava. E só. Eu devia estudar, lavar os pratos, recolher as roupas. Queria-me perfeito. Fui humano. Falhei. Devo-lhe muitas decepções. Soube disso, das vezes em que senti seu olhar de acusação me pesar como um manto de chumbo. Eu nem sabia ao certo o que devia fazer para fazê-la feliz. Talvez se eu trouxesse-lhe uma flor roubada no jardim do condomínio, mas não havia flores por lá e eu também não poderia cultivá-las, ocupar-me com inutilidades, ela por certo pensaria assim. Nenhum botão desabrochou, nenhum floriu… e que história seria essa agora de um jardim suspenso no vigésimo terceiro andar? Desta vez, esse menino enlouqueceu!

Ela nunca soube dos meus medos (esse era um deles… enlouquecer, para suportar…) e tive tantos… ainda os tenho.

De hoje em diante, ela não deitará tarde da noite na cama ampla e perfumada, estará como sempre esteve, bem distante de nós, mas talvez agora descanse, queixava-se tanto…
Mesmo assim, estranhamente eu a amava, sabia de suas preocupações, mas o que eu não entendia, o que nunca entendi, era esse jeito de amar sem olhar nos olhos, sem aproximar-se. Talvez a culpa tenha sido minha, talvez eu tenha crescido rápido demais e ela assustada, tenha pensado que eu já estava preparado para os desafios que aguardavam por mim do lado de fora. Mas eu ainda tinha medo da vida, os muros do mundo me pareciam altos demais para meus limites, ainda pequenos e frágeis. Eu cairia muitas vezes, em algumas delas, machucado, machucado demais.

Muitos anos se passaram desde aquele dia, para mim tão temido e triste, que jamais pude esquecer. Hoje a vida se ilumina novamente. Ouço o choro de meu filho, recolho seu rostinho miúdo em meu colo, lhe aqueço em meus braços para que ele possa sentir-se protegido. Saberá do meu amor, saberá o quanto é importante para mim. Talvez, às vezes penso, eu não possa dar-lhe tudo o que tive, mas ele terá tudo o que me faltou…