Presunções

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Sempre achei uma grosseria imperdoável a presunção. Atributo de quem se julga sempre mais do que é. Sempre considerei o conhecimento uma fonte inesgotável de poder. Um instrumento, não de combate, mas de crescimento.

A entojada atmosfera autodidata tem insuflado egos. Por certo, técnicos demais e consequentemente inseguros demais também. Desesperados por reconhecimento e fama.

Falar difícil, ou então citar personalidades estranhas à maioria dos mortais, se referindo à grandeza dos teóricos, tão mortais quanto nós, não nos dá créditos maiores do que aqueles que realmente detemos. Ao contrário, os retira. É fato que os grandes nomes da cultura, da filosofia, das ciências e de todas as formas de desenvolvimento humano estavam ocupados demais com sua natural curiosidade e insuspeitas inquietações para se preocuparem com coisas tão insignificantes. Por isso, alcançaram sem esforço a condição de imortalidade, tão cobiçada pelos tolos.

Pergunto: por que essa necessidade de ser “uma personalidade”? Cópias imperfeitas dos grandes gênios? Discípulos ou mestres? Por que um medo tão grande do “lugar comum”? E afinal que lugar é esse? É um lugar de desvalor?

Acredito, em nada descreio de uma pequena certeza: aqueles que deixarão seu nome inscrito na história de nossos tempos, não são estes que se auto-proclamam detentores do saber, mas sim aqueles que na clausura do silêncio, pensam mais do que falam. E daí, você diria? Pois é, e daí?

O conhecimento seduz e encanta, mas também pode mobilizar sentimentos de aversão, indiferença ou desprezo. Pode humilhar, depreciar, ti-ra-ni-zar ou então estimular, desafiar, conquistar, trans-for-mar. Por que afinal, de que adianta você saber quem foi Frida Kahlo – e perdoem-me a ignorância, mas prefiro admiti-la, só soube de sua existência por ser fã de Adriana Calcanhoto – se sou incapaz de sentir a grandeza de sua obra? Na obra a alma. Na emoção teorizada, o crítico de arte diz o que poucos são capazes de compreender.

Uma regra básica, muito importante no processo de comunicação é adequar nosso nível de linguagem ao de nosso interlocutor e proceder aos necessários ajustes de acordo com o ambiente, o assunto do qual estamos tratando e o que queremos comunicar. Numa roda de samba no Rio de Janeiro, qualquer Zé Mané seria capaz de falar com propriedade sobre a história do samba, citar grandes nomes, lembrar velhos clássicos. Tudo isso, dito por um historiador ganharia um refino teórico que não o faria mais sábio que o Mané Zé, no entanto, ao ouvi-lo, muitos diriam que esse sim é que é “o cara”. Mas e ao ouvir o Zé Mané? A mesma história valeria bem menos. Conversa de malandro, bebum… Zé Mané.

Temos que ter consciência de nossas limitações, especialmente as limitações de ordem intelectual. Temos que saber que somos pequenos demais para alardear grandezas, e as tais “grandezas” devem nos fazer miúdos ao abrigo da humildade, que nada tem a ver com sentimentos de menos valia ou baixa autoestima. Não, não temos esse direito. Nem seria justo que o tivéssemos, pois seja qual for o esforço que façamos na busca pelo conhecimento ele será sempre um fragmento, nada mais que um fragmento. E por mais que muitos tentem disfarçar com discursos enfadonhos e às vezes até irritantes, somos frágeis e tudo o que desejamos é encontrar a felicidade, o amor, a saúde perfeita. E só. Até os teóricos sabem disso, embora muitos deles não tenham sido felizes, não tenham encontrado o amor, nem gozado de boa saúde…
A presunção é o holocausto do conhecimento…