Soldado da guarda

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Estava distraído. O dia era claro. Quase meio-dia. Olhava a rua e talvez por isso chamou-me a atenção. Pude avistá-lo por estar também distraída, também a olhar a rua através do vidro da lotação que dobrava a esquina no centro da cidade, quase como um passeio de bondinho. Não era. Traço de uma alma melancólica ou talvez antiga. A minha.

O pensamento perdido. O meu e o dele. Nenhuma razão para a convergência do olhar que em momento algum se encontrou. À sua frente a calçada sagrada, às minhas costas a benção do templo. Mais que claro, o dia era vivo. O homem, no entanto, parecia-me morto. Eu, sempre atenta às impressões que me atravessam de repente, pensei que aquele era um homem triste. De olhos cansados. Cansados e também tristes como tudo nele. O corpo ereto, inflamado desespero. Aparente imobilidade. Ou ânsia. Não saberia definir ao certo.

Um soldado da guarda. Sem armas, um coração aflito. Sem elmo, a alma frágil. Matéria intangível. Etérea. Ficou ali, parado, enquanto a lotação seguia e quantas outras coisas não passaram por ali, sem que percebesse. Nada sentia. Em frente à porta, a cruz. Oblíquo a ela, o homem.

Braços na linha do corpo, crucificado. Lugar do sacrifício. Quantas estações no calvário da vida? Por certo, muitas. Crucificada alma de ânsia escarlate…

A quem protegeria o soldado da guarda? Sem armas, a quem protegeria o desprotegido protetor?