Solidão do cão

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Não sei representar. Não sei dissimular nenhum sentimento. Estou sempre despida. Despida a alma, despido o corpo. Na expressão corrosiva da face sempre a verdade. A verdade é sempre a pior traição.

É madrugada. Ouço um cão latindo. Faz-me lembrar o pedido de uma amiga. Contou-me que há tempos, quando ainda dava aulas, costumava adentrar a noite corrigindo provas e ouvia, como ouço agora, a angústia solitária de um cão. Falou com tão prazerosa saudade que fiquei pensando. Agora estou sentindo e por isso, e talvez só por isso, eu esteja agora escrevendo…

Sozinhos, ela, a madrugada e o cão. As provas.

Invadir assim a intimidade da noite, me assusta um pouco.

Enquanto dormimos, (sem sonhar), a noite vai ocupando os cômodos, também ela precisa descansar à espera do dia e de sua luz encharcada de desesperanças. É preciso força, para suportar o que virá.

E o que virá? Nenhum de nós pode saber ao certo. Talvez, ela e o cão se encontrem por acaso e incapazes de se reconhecer no clarão do dia que ofusca as angústias, sequer se ocupem um do outro e só voltem a repartir silêncios e uivos, quando outras provas vierem a ser corrigidas.

A solidão, às vezes, é única uma forma de aproximação que nos permitimos.