A revitalização do Fórum Velho

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 Tenho para mim que os magistrados que patrocinaram a construção do “Novo” Fórum, (possivelmente década de 60 ou 70) quando as últimas fagulhas dos trens se apagavam, não eram santo-angelenses, mas itinerantes ocasionais. Gente nossa seriam sensíveis ao panorama e a agressão ao ambiente, alterando drasticamente um ambiente histórico ainda pulsando. Já naquela época os espaços históricos ferroviários, nada diziam aos forasteiros…

Santo Ângelo sempre foi uma das mais belas cidades do Estado, como até hoje, graças às suas largas ruas e avenidas, seguindo a disposição ortogonal estabelecidas pelos Jesuítas, mais tarde arborizadas, a princípio com cinamomos.

A vila em si mal se agasalhava em torno de uma praça histórica e adjacências numa administração atrelada à política oficial sob o comando de varões de estirpe militarizados dentro do espírito da época. Os campos contíguos, adjacentes e distantes com gados nada valiam, senão em grandes áreas mantidas com sacrifício. Eram os estancieiros pioneiros dispersos nas solidões.

O grande choque que quebrou rotinas centenárias foi o anúncio da construção de um ramal ferroviário. Nesta altura as terras coloniais da primeira colonização alemã após 2 ou 3 gerações estavam esgotadas e, sobretudo inçadas. A produção não era econômica e constava dos gastos da manutenção que era entregue aos comerciantes.

Este fato (a vinda do trem) mobilizou os colonos alemães a emigração, atrás do húmus das terras novas, mas havia outro óbice a barrar, as ambições de progresso: a desvalorização da produção pelo custo do transporte aos mercados distantes, antes em carretas.

Eis que foi anunciada a via férrea que provocou intensa imigração maciça de segmentos importantes com profissões diversas e agricultores de sucesso e Santo Ângelo, o fim da linha e mais tarde Giruá tornou-se uma “Meca”.

Centenas desses valorosos colonos de Taquara, Caí, Montenegro, Lajeado, Estrela, Santa Cruz fizeram expansão rápida da cidade mesmo antes da chegada da ponta dos trilhos. Tal fato fez com que grandes indústrias de Porto Alegre para cá se dirigissem (1928-1930) atrás do contingente da produção: Sociedade de Banha Sul Riograndense Ltda, depois Frigoríficos Nacionais e a americana Cia Brasileira de Fumo em Folha, seguindo-se de outras.

Foi o estopim. Tudo vinha pelo trem e tudo era despachado pelo trem, inclusive os passageiros. Uma mudança fenomenal. Enormes filas de vagões de carga e de transporte de animais e a parafernália de acessórios. Exportações e importações mudaram a vila tranquila: apitos de máquinas a vapor, sirenes a convocar operários que foram surgindo, junto com os apitos das indústrias e sobretudo dos trens.

Este o espetáculo saudosista, mas quem pensar um pouco mais, concluirá que aqueles 50 anos de ininterrupto trabalho envolvendo gerações de famílias que fizeram Santo Ângelo ser o que é. Se fosse mais tarde em termos de exponenciação, muitos outros lugares teriam tomado a frente.

A Viação Ferrea do Estado do Rio Grande do Sul e seu momento de chegada (junto com os quarteis) por isso mesmo são os grandes responsáveis pelas transformações.

O espaço em que isso aconteceu e por isso mesmo chama-se Quadro da Estação. De propriedade do Estado. Não proteger estes espaços de história intensa, seria um crime que a história cobrará.

A Varig abriu aqui em Santo Ângelo junto com Bagé, o primeiro terminal aéreo face aquele progresso.

A esse gênero por quem clamamos está definido nos componentes científicos de defesa da memória, uma segunda natureza ou seja a proteção ambiental de que estamos tratando. 

O Quadro da Estação é um reduto histórico por autenticidade.