Bença mãe! Deus te abençoe meu filho

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Existem pessoas que parecem são destinadas a carregar uma cruz muito mais pesada que a maioria dos outros, esse é o destino que tem se apresentado a Maria (nome fictício), a quem acompanho há muito tempo, desde o início de minha trajetória no Juizado da Infância e Juventude, já tendo ela perdido um filho adolescente, assassinado depois de vários envolvimentos com atos infracionais, mãe de mais três filhos, dos quais um deles, João (nome fictício), há muito tempo vem apresentando comportamento desregrado, viciado em Crack desde a infância, cometendo vários pequenos furtos para sustentar o vício.
A vida de Maria não é nada fácil, vive com outros filhos e netos em imóvel disponibilizado pelo Município, com aporte nutricional fornecido pela Secretaria de Assistência Social, além de Bolsa Família que no conjunto não chega a R$ 400,00, somados as pequenas quantias de uma faxina aqui e outra acolá.
A pobre mãe, várias e várias vezes, foi às lágrimas na sala de audiências do Juizado da Infância, durante as solenidades envolvendo o filho João, que já foi internado mais de uma vez para tratamento contra drogadição, sem posterior adesão, voltando sempre a estaca zero, para em seguida praticar outro furto, cavando a cada dia um fosso que não parece ter fim.
Poucas vezes vi uma mãe abandonar um filho, aliás, raras vezes, não sendo esse o caso de Maria, que faz das tripas coração por João, mas dentro de sua miserabilidade cultural e existencial as dificuldades são ainda maiores. A própria rede protetiva há algum tempo já jogou a toalha, pior ainda agora que ele completou a maioridade, sendo mais um dos vários casos em que falhamos todos. A tendência é que logo ali adiante venha a ser preso e jogado para dentro do sistema carcerário, que todos sabem não tem a estrutura adequada para recuperar os detentos.
Essa é uma dura realidade que se repete, como diria Gabriel Garcia Marques, trata-se de uma crônica de uma morte anunciada, infelizmente não temos os mecanismos de ressocialização tão necessários, que exigem uma política pública com olhos voltados para as pessoas, com investimentos no ser humano, enquanto isso não acontece os Joãos e as Marias da vida se multiplicam em cada cidade, não têm eles cara, nem poder de decisão, são vítimas de um sistema que os engole, lembrados em épocas em que o voto é importante, ou pelo clamor de uma sociedade que pede a prisão aos desregrados.
Mas no caos reina o afeto entre a pobre Maria e o filho João, quando os dois se encontraram nas audiências, ao chegar um abraço fraterno, na despedida escoltado e algemado pelos socioeducadores da CASE, externam laços recíprocos de respeito, sempre com a mesma frase “BENÇA MÃE, DEUS TE ABENÇOE MEU FILHO”.
Que a vida lhe seja menos pesada Maria, juízo João.
Um ótimo final de semana a todos.