Cartão vermelho para o Caçapava

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 Quando fui convidado para ser colunista deste jornal, referi aos jornalistas responsáveis que abordaria prioritariamente questões envolvendo a infância e juventude. Na época, sabendo eles que sou Cônsul do Internacional em Santo Ângelo em tom de brincadeira me falaram poderia eu, eventualmente, abordar assuntos de meu clube do coração.

Hoje faço isso, trazendo aos leitores, em primeira mão um texto que faz parte de um livro que será lançado neste mês, na feira do livro em Porto Alegre, organizado pelo Movimento Inter Grande – MIG, texto no qual fiz uma homenagem ao falecido Caçapava, grande amigo que aprendi a admirar.
Lembro-me com saudosismo da minha infância, época em que acompanhava o colorado pelo rádio, isso em meados dos anos 70, em Passo Fundo, imaginava eu as jogadas desenhadas na voz do Ranzolin de um time que tínhamos todos na ponta da língua. Time que tinha um centro médio vigoroso no meio de campo, que pelos embates que eram descritos pelas ondas do rádio, imaginava, hipoteticamente, como alguém indócil, bruto, afeito ao jogo pegado, jogador forjado nos campos que de grama tinham pouco.
O tempo passou, os dias são outros, nunca mais o Internacional teve um time como aquele, que me desculpe o falecido Fernandão, mas um time com Manga, Claudião, Figueiroa, Marinho, Vacaria, Caçapava, Batista e Falcão, Valdomiro, Dario e Lula foi insuperável na história do colorado. Que máquina, que time, que saudades daqueles tempos, tempos de Caçapava, da certeza da vitória, tempos de passe refinado, de vigor físico, de indignação e de amor à camisa.
O que poderia eu pensar de Caçapava ao escutar as narrações de seus enfrentamentos ferrenhos com os adversários, imaginava um jogador impiedoso, que jogava com a “faca nos dentes”, de poucas palavras, daqueles que só de olhar dava medo. Grande erro o meu.
Conheci Caçapava pelas mãos do querido amigo Norberto Guimarães, quando Diretor de Comunicação Social do Inter, eu na condição de Cônsul do Inter em Santo Ângelo, posição que ocupo até hoje. Depois, fui nomeado Diretor Regional do Inter nas Missões, sendo na sequência convidado a integrar o Movimento Inter Grande (MIG), movimento do qual tenho uma enorme satisfação de participar. Aliás, das tantas contribuições impares que essa plêiade de dirigentes que compõe o MIG deixou de legado ao Internacional, está o resgate da dignidade de jogadores que fizeram história no colorado, a exemplo de Caçapava, trazendo-o para trabalhar na Comunicação Social e contar suas histórias inesquecíveis.   
 Ao contrário da imagem que tinha quando guri de um jogador truculento, encontrei uma pessoa amável, de fácil trato, de uma educação sem igual, homem simples, de um coração do tamanho do seu futebol. Atencioso com todos, de conduta irrepreensível, daquelas pessoas que dava gosto de sentar e conversar. Criei uma grande afinidade com ele, sempre que nos encontrávamos a conversa era prazerosa, que carisma tinha o Caçapava, que criatura humana sem igual.
Em uma dessas andanças nos encontramos em um evento consular em Horizontina. Estava ele e o Fabiano, “Uh Fabiano”, brincando e o Caçapa se gabando de que nunca havia recebido um cartão vermelho. Então, ele propôs uma brincadeira, sabendo que tenho como profissão a função de Juiz de Direito: “Dotor, o senhor que é juiz, vamo fazê o seguinte: tenho aqui um cartão vermelho, vamo bate uma foto do senhor me apresentando um cartão vermelho”? Topei imediatamente. O Caçapava se postou de mãos para trás como pedindo piedade. Registramos o momento, ele com uma cara de guri chorão e eu apresentando um cartão vermelho de forma acintosa. A foto circulou e virou brincadeira. Cada vez que nos encontrávamos dávamos boas risadas. Que pessoa, que colorado, que jogador, saudades daqueles tempos, tempos de um Caçapava dócil com os amigos e impiedoso com os adversários.
Um ótimo final de semana a todos. E saudações coloradas.