Um ato de amor

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Faz parte do dia a dia da jurisdição do Juizado da Infância e Juventude o afastamento de crianças e adolescentes da família de origem, hipóteses em que o caminho natural seria o acolhimento institucional, com a inserção das crianças nos “abrigos”. Em Santo Ângelo existe outra alternativa, poucos sabem, mas contamos com um programa municipal que é referência no Estado do Rio Grande do Sul, o programa “Família Acolhedora”, que propicia que crianças e adolescentes que estejam afastados da família de origem por decisão judicial, ao invés de serem acolhidos em abrigos, sejam acolhidos em famílias previamente selecionadas e cadastradas, que ao receber essas crianças e adolescentes em suas residências percebem um subsídio mensal de 01 (um) salário mínimo, pago pelo Município de Santo Ângelo.

Já tratei do tema em outra oportunidade, mas volta a carga pela importância do programa e por sentir no dia a dia, os ganhos que se tem tido. Hoje são cerca de 23 crianças e adolescentes que estão em famílias acolhedoras, estivessem eles nos abrigos o custo para o Município seria algo em torno de R$ 28.000,00, enquanto no acolhimento familiar este custo baixa para cerca de R$ 20.000,00, ou seja, além de propiciar as crianças e adolescentes um atendimento em ambiente familiar, de forma individualizada, o custo é menor.

Aliás o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê como preferencial o acolhimento familiar, ao invés do acolhimento institucional (abrigos), assegurando a mantença da convivência familiar, mesmo nos casos em que a criança está afastada da família de origem.

Mas aí a pergunta: por que então o número de crianças e adolescentes acolhidos em abrigos é infinitamente superior aos acolhidos em acolhimento familiar? Primeiro, porque o acolhimento familiar foi inserido em nosso ordenamento jurídico muito recentemente, no ano de 2009, por força da Lei nº 12.010; segundo, porque a resistência à mudança sempre terá questionamentos a serem superados; terceiro, porque o número de famílias que se dispõem a acolher crianças e adolescentes ainda é muito baixo; quarto pela compra da ideia pelo Poder Público, o que não é o caso de Santo Ângelo, que por suas sucessivas administrações entenderam e entendem os ganhos de um programa nessa natureza.

Ocorre que hoje, muitas poucas pessoas têm disponibilidade de tempo e a vontade de cuidar. Hoje, boa parte das pessoas terceirizam os cuidados com os filhos, deixando-os em creches, ou com babás, o que é um fenômeno das famílias modernas, na medida em que pais e mães, em regra trabalham fora, não tendo tempo para os filhos.

Além disso, existe o sentimento das pessoas de que irão sofrer, quando a criança acolhida  retornar à família de origem, ou for encaminhada à uma família substituta (adoção), o que para mim é sinônimo do individualismo que permeia o ser humano. O fato é que as pessoas que se dispõem a acolher têm que ter a compreensão de que o ato de acolhimento é um ato de solidariedade prestado à quem está em situação de vulnerabilidade em um momento difícil da vida.

É necessário pensar mais no outro e menos em nós próprios, o que tenho visto é um ganho de extrema importância para as crianças e adolescentes que vivem esta experiência.

Um grande abraço e um ótimo final de semana a todos.