O mendigo

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Em razão da correria de final de ano, peço desculpas para repetir uma das minhas colunas mais acessadas na net, escrita em janeiro…

Parei o carro próximo à barraquinha de cachorro quente, na beira da praia. Elis e os meninos desceram. Fiquei no carro. De repente alguém bate no meu vidro e, ingenuamente eu abro. Aparece um mendigo, destes moradores de rua. Jovem, com uns 30 anos, e poucos dentes. Ele diz:
– Aí, o sr. é gente fina, baixou o vidro o carro… porque “tens uns ingnorantes” que nem baixam o vidro, tratam a gente que nem bicho… aí o sr. é gente fina, AMÉM, AMÉM
(Pensei: por que baixei o vidro? Que mancada…)
– Seguinte dr. Eu não quero dinheiro… eu pudia tá matando, pudia tá roubando, mas tô aqui, e tô com fome, mas não quero dinheiro… o sr. pudia me consegui um pão com manteiga?
Não acreditei. Quantos anos sem falar com um morador de rua… Saí de Porto Alegre em 1997, conhecia vários. Vim para o interior, onde aqui, na região Noroeste tem poucos ou quase nenhum. Senti um frio, parado olhando para ele, percebi o quando eu estava vulnerável. Como estou inocente, ingênuo, desatento. Abri o vidro do carro sem olhar, que estúpido.
– Vou te arrumar um cachorro-quente amigo. Espera aqui que farei sinal para minha esposa e ela trará.
– Amém, dr… Amém, dr…. o sr. é gente fina, não é que nem uns e outros por aí, que nem enxergam a gente… eu pudia tá matando, eu pudia tá roubando…”
– Tá, tá, tá, já vou te arrumar o cachorro quente. Dois minutos. Aguarda aqui.
Fechei o vidro, coloquei o carro 2 metros para frente e tentei fazer sinal para a Elis. Ela não me viu. Puxa vida. Olhei para a calçada, dois garçons riam da minha situação. Que legal. Pensei: vou resolver naturalmente, óbvio, já lidei mil vezes com este tipo de situação…
– Ooooo companheiro! Vem cá! A minha mulher não está me enxergando, então vou facilitar pra você. Toma aqui dois reais e compra um cachorro quente.
– Dois reais dr.? O sr. sabe quanto custa um pão com manteiga ali? Dois e oitenta e cinco!
Não acreditei. Agora eu estava discutindo o preço de um pão com manteiga, ou de um cachorro quente com um morador de rua… que legal… passei a tarde com a cabeça enfiada em um relatório e agora estou debatendo a inflação na classe “Z”. Que maravilha…
– Espera aí. 1 minuto – falei.
Fechei o vidro e catei 3 moedas de 1 real cada. Olhei para o lado, já eram 4 os garçons olhando a cena, que droga. Abri o vidro de novo…
– Aí companheiro, leva mais 3 contos pra comprar um completo!
– Bah dr., não posso comer um completo não.. Olha aqui dr., olha aqui…
Ele levantou a camiseta e mostrou uma cicatriz no peito, tipo aquelas de filme, tipo uma facada. Pensei comigo: agora sim. Além de discutir o preço do pão, estou analisando as marcas da vida do cidadão. Por que comigo?
– Então tá companheiro! Valeu! Capricha no lanche! Abração – e fechei o vidro.
Elis e os meninos voltaram para o carro. Contei o episódio. Primeira reação da Elis:
– Como é que você abre o vidro? E se fosse um assalto? E se fosse um sequestro… E se… blá, blá, blá, blá…
(alguns minutos depois)
– Pai, como ele era? Estava armado? Como ele falava? Que tipo ele era? Que roupa ele usava?
Olhei para os lados e não vi mais o homem. Meu filho mais novo, Henry, então disse:
– Pai, mas se você deu o dinheiro para ele comprar algo para comer, ele não deveria estar ali, na barraquinha?
E então ela finalizou:
– É que teu pai deu só R$ 5,00. O cachorro quente custa R$ 8,00.
Então, comecei o verão com fama de pão duro…