O Mendigo…

0
115

Parei o carro próximo à barraquinha de cachorro quente, na beira da praia. Elis e os meninos desceram. Fiquei no carro. De repente alguém bate no meu vidro e, ingenuamente eu abro. Aparece um mendigo, destes moradores de rua. Jovem, com uns 30 anos, e poucos dentes. Ele diz:

– Aí, o Sr. é gente fina, baixou o vidro o carro… porque “tens uns ingnorantes” que nem baixam o vidro, tratam a gente que nem bicho… aí o Sr. é gente fina, AMÉM, AMÉM
(Pensei, por que baixei o vidro, que mancada…)

– Seguinte Dr. Eu não quero dinheiro…eu pudia tá matando, pudia tá roubando, mas tô aqui, e tô com fome, mas não quero dinheiro… o Sr. pudia me consegui um pão com manteiga…??

Não acreditei. Quantos anos sem falar com um morador de rua… Saí de Porto Alegre em 1997, conhecia vários. Vim para o interior, onde aqui, na região Noroeste tem poucos ou quase nenhum. Senti um frio, parado olhando para ele, percebi o quando eu estava vulnerável. Como estou inocente, ingênuo, desatento. Abri o vidro do carro sem olhar, que estúpido….

– “Vou te arrumar um cachorro quente amigo. Espera aqui que farei sinal para minha esposa e ela trará…”

– “Amém, Dr. Amém Dr. o Sr. é gente fina, não é que nem uns e outros por aí, que nem enxergam a gente… eu pudia tá matando, eu pudia tá roubando…”

– “Tá, tá, tá, já vou te arrumar o cachorro quente. Dois minutos. Aguarda aqui.”

Fechei o vidro, coloquei o carro 2 metros para frente e tentei fazer sinal para a Elis. Ela não me viu. Puxa vida. Olhei para a calçada, dois garçons riam da minha situação. Que legal.

Pensei: vou resolver naturalmente, óbvio, já lidei mil vezes com este tipo de situação…

– “Ooooo companheiro! Vem cá! A minha mulher não está me enxergando, então vou facilitar pra você. Toma aqui dois reais e compra um cachorro quente.”

– “Dois reais Dr.? O Sr. sabe quanto custa um pão com manteiga ali? Dois e oitenta e cinco!!”

Não acreditei. Agora eu estava discutindo o preço de um pão com manteiga, ou de um cachorro quente com um morador de rua… que legal… passei a tarde com a cabeça enfiada em um relatório e agora estou debatendo a inflação na classe “Z”. Que maravilha….

– “Espera aí. 1 minuto”- falei.

Fechei o vidro e catei 3 moedas de 1 real cada. Olhei para o lado, já eram 4 os garçons olhando a cena, que droga. Abri o vidro de novo…

– “Aí companheiro, leva mais 3 contos pra comprar um completo !”

– “Bah Dr. não posso comer um completo não.. Olha aqui Dr, olha aqui…”

Ele levantou a camiseta e mostrou uma cicatriz no peito, tipo aquelas de filme, tipo uma facada. Pensei comigo: agora sim… além de discutir o preço do pão, estou analisando as marcas da vida do cidadão. Por que comigo?

– “Então tá companheiro! Valeu! Capricha no lanche! Abração” – e fechei o vidro.

Elis e os meninos voltaram para o carro. Contei o episódio. Primeira reação da Elis :

– Como é que você abre o vidro? E se fosse um assalto? E se fosse um sequestro… e se… blá, blá, blá, blá…

(alguns minutos depois)

– Pai, como ele era? Estava armado? Como ele falava? Que tipo ele era? Que roupa ele usava?

Olhei para os lados e não vi mais o homem. Meu filho mais novo, Henry então disse:

– Pai, mas se você deu o dinheiro para ele comprar algo para comer, ele não deveria estar ali, na barraquinha?

E então ela finalizou:

– É que teu pai deu só R$ 5,00. O cachorro quente custa R$ 8,00.

Então, comecei o verão com fama de pão duro…